A seguir, a entrevista que o Cônsul Honorário de Portugal em Niterói, Lúcio Ferreira de Azevedo, concedeu a Revista Tema Livre no último dia 18 de Fevereiro, na qual ele fala sobre o Consulado de Portugal em Niterói e a Colônia Portuguesa da cidade, conta a sua chegada ao Brasil, com apenas 16 anos de idade, e as dificuldades que encontrou ao chegar em um novo país.


Revista Tema Livre – Quando se iniciaram as atividades do consulado de Portugal em Niterói e quais as suas atribuições e área de abrangência?

Lúcio Ferreira de Azevedo - Bom, na realidade, nós fomos nomeados em 1999 e assumimos em fevereiro de 2000 o cargo de cônsul honorário de Portugal em Niterói. Isso abrange não só Niterói, como São Gonçalo, e vai até a região dos lagos. As pessoas nos procuram aqui para: autenticar documentos, autenticar procurações, atestado de residência, e não só atendemos os portugueses, mas os brasileiros também, os que pretendem estudar em Portugal ou que pretendem trabalhar lá, ou mesmo até em outro país da Europa. Como hoje Portugal está inserido na Comunidade Européia, vários brasileiros vêm a nós para reconhecer diplomas, certificados, então aí que eu calculo que hoje o atendimento ele é mais ou menos 50% para portugueses e 50% para brasileiros. Nós aqui não tratamos, por exemplo, de passaportes, de direitos de igualdade, mas agendamos para o consulado geral, no Rio de Janeiro. Quando a pessoa tem interesse em trabalhos que nós não temos autonomia para fazer, somente o consulado geral é que tem, aí é que entra a nossa colaboração em fazer o elo com o consulado do Rio, orientando as pessoas e agendando também para que elas possam ser atendidas lá no consulado geral.

RTL - A colônia portuguesa de Niterói possui cerca de quantas pessoas?

Azevedo - Olha, aqui em Niterói, como é uma cidade muito unida a São Gonçalo, normalmente, quando se fala em termos de colônia portuguesa a gente abrange Niterói e São Gonçalo. No passado, isso há 20, 30 anos, já passaram de 15.000. Hoje, nós calculamos em volta de 5 000 portugueses natos, que moram em Niterói e São Gonçalo.

RTL - Quais são as principais atividades que essa comunidade exerce?

Azevedo - A principal atividade é o comércio. Comércio de padarias, de açougues, de roupas, de calçados, além dos industriais, sendo alguns de móveis, temos, também, empresários de ônibus... Essas são as principais atividades, além de executivos que tem vindo recentemente, porque de uns 20 ou 30 anos para cá a imigração para o Brasil diminuiu muito, e o tipo de imigração que existe hoje, embora pequena, mas é uma imigração bem diferente daquela imigração antiga. Hoje ele já vem diplomado, formado, para ser executivo, por exemplo, a própria CERJ (Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro), que hoje é administrada por portugueses e espanhóis, temos vários portugueses trabalhando aí, mas já com curso superior, são engenheiros, economistas e etc.

RTL - O sr. veio para o Brasil em que ano? E porque o Brasil?

Azevedo - Eu vim para o Brasil em 1952. Cheguei aqui, em Niterói mesmo, em 30 de maio de 1952. E o principal motivo de eu ter emigrado eu acho que foi o da maioria dos portugueses que emigraram naquela altura: é porque havia uma guerra colonial entre Portugal e Angola e 90% dos portugueses que serviam no serviço militar faziam estágio em Angola. E entre ir para Angola, para guerra, e vir para o Brasil, como imigrante, a opção de vir para o Brasil era bem melhor, na realidade, vontade de vir para o Brasil, que sempre foi para Portugal o eldorado, a terra prometida, e eu, garoto, vim para o Brasil, com 16 para 17 anos. Se eu não viesse, no ano seguinte, teria que me apresentar à inspeção do serviço militar, e só podia viajar até os 16 anos. Com 17 anos completos já não deixavam viajar mais porque já estava se aproximando o serviço militar. Mas aí, nós que aqui chegamos em 30 de maio, e estamos há mais de 50 anos, felizmente, com muita luta, muito trabalho, já aprendemos há muito tempo a fazer do Brasil a nossa terra. Hoje, eu vou a Portugal como visita, passeio, mas eu considero o Brasil a minha terra, até porque a minha esposa é brasileira, os filhos, os netos, os amigos... então, realmente, eu hoje considero a minha terra o Brasil. Apesar, naturalmente, de continuar amando Portugal. Mas não amo menos o Brasil que Portugal.

RTL - De onde o sr. é ?

Azevedo - Do Porto, da cidade do Porto.

RTL - Qual a principal dificuldade que encontrou ao chegar ao Brasil?

Azevedo - Eu acho que a dificuldade de todo imigrante. Porque o imigrante ele é a mesma coisa que o filho que é criado com o carinho dos pais, com a proteção dos pais, e um dia ele perde isso e vai a vida, e tem que lutar sozinho com os seus próprios esforços. O imigrante também é assim. Cheguei com 16 anos e tive que enfrentar 14, 15, 16 horas de trabalho por dia e, naturalmente, todo imigrante pensa em fazer uma economia. Isso é a primeira coisa que vem a cabeça do imigrante é fazer uma economia, porque ele quer provar para ele mesmo e para a família que ele é capaz. E aí, normalmente, o imigrante não mede esforços. Ele vai a luta, trabalha, e não tem dia de descanso. Eu, por exemplo, fiquei os primeiros três anos que passei no Brasil sem descansar um dia. Trabalhei sempre sábado, domingo, feriado, todo dia. A prova é que com 19 anos eu me estabeleci. Aquela altura os salários também não eram bons assim, mas trabalhando em excesso de hora, ganhava hora extra, então meu salário dobrava. Juntei a economia, e eu, com 19 anos, já tinha uma economia naquela altura de 300.000 cruzeiros. Para ter uma idéia do que é isso, o salário mínimo naquela altura era 2.400. Quando eu cheguei era 1.200. Em 1955 era 2.400. Um garoto, com 19 anos, com salário de 2.400, ter uma economia de 300.000 era porque eu ganhava bem mais que o salário. Bem mais pelo motivo de trabalhar horas extras e ter praticamente dois empregos. Eu fui trabalhar na confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro, mas, fora da confeitaria, trabalhava também para os clientes que faziam festividades no final de semana, às vezes trabalhava a noite toda, e domingo a confeitaria não abria, mas abria a filial da Colombo em Copacabana, e eu estava lá, trabalhando, e aos feriados, eu estava lá, trabalhando... então, daí que com 19 anos eu tinha uma economia que quase dava para me estabelecer, e um amigo, acompanhando esse meu esforço, esse meu trabalho, me colocou mais 500.000 cruzeiros naquela época para que eu me estabelecesse, e me estabeleci com uma pequena mercearia e confeitaria aqui em Santa Rosa (Zona Sul de Niterói), na avenida 7 de setembro. E daí veio a luta. Passados alguns anos, eu comprei uma loja na rua Moreira César com Belizário Augusto (Icaraí, Zona Sul de Niterói), onde teve lá a Luciu’s Lanches por muitos anos, depois teve também a Luciu’s Roupas, que era uma filial, e hoje é a Mister Cat, que a loja é minha e eu a aluguei. E daí a luta nesses 50 anos. Naturalmente, hoje a gente não faz os esforços que fazia naquela época, mas durante muitos anos, muitos anos mesmo, a luta foi grande, a luta foi árdua. Para ter uma idéia eu cheguei aqui em Niterói com 16 anos e o meu peso era 70 quilos, três anos depois, eu pesava 57 quilos. Perdi 13 quilos... então aí a prova do esforço. Três anos sem descansar um dia. Trabalhando 15, 16 horas por dia... E eu acho que o brasileiro quando ele imigra faz mais ou menos isso. Já estive nos Estados Unidos, no Canadá, onde eu conheci brasileiros que estão lá juntando dinheiro para comprar uma casa aqui no Brasil, para se estabelecerem, e aqui eles não fariam os esforços que fazem lá. De maneira nenhuma. Quando a pessoa imigra ela vai com aquela vontade mesmo. E eu acho que o homem consegue tudo aquilo que ele quer. É uma questão de força de vontade. É isso aí...

RTL - Finalizando, Portugal, do período salazarista, quando o sr. veio para o Brasil, até os dias de hoje, da Comunidade Européia, mudou muito. Qual a maior mudança que o país sofreu na sua opinião?

Azevedo - Bom, eu acho que Portugal é um país que tinha poucos ricos e muitos pobres, e hoje todo mundo tem um bom padrão de vida. Aqueles que naquela época eram ricos, hoje, não são tanto, a coisa está mais socializada. E eu acho que isso é uma tendência de todo o mundo. É a tendência de todos os países do mundo. Eu acredito que o Brasil, em pouco tempo, também vai experimentar essa nova situação social, que eu acho inclusive que nós já estamos vivendo o caminho para essa situação. Pelo menos é o que o nosso presidente Lula está prometendo. Fome zero... que, eu aliás, acho que um país como o Brasil, rico por natureza, é crime passar fome. Eu acho que ninguém pode passar fome nesse país. Eu acho que no Brasil há oportunidade para todos, mas por uma questão de educação de povo, por uma questão de orientação do governo, que precisa oferecer mais oportunidades... Mas eu acho que nós já estamos nesse caminho. Eu acho que é por aí mesmo.


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