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Apresentação: edição 06

Revista Tema Livre

No ar desde 23 de Abril de 2002.

Ano II – Edição nº06 – Niterói, Rio de Janeiro, 23 de Agosto de 2003.

No período de 27 de julho a 01 de agosto de 2003 aconteceu em João Pessoa, na Paraíba, o XXII Simpósio Nacional de História e, assim, a Revista Tema Livre realizou a cobertura do evento, disponível nesta edição, a sexta, na seção que leva o nome da revista.

Como entrevistados temos a historiadora Margarida Maria Dias, coordenadora do Simpósio e vice-presidente da ANPUH e, também, o historiador António Manuel Hespanha, da Universidade Nova de Lisboa, que foi um dos conferencistas do evento realizado em João Pessoa.

O artigo desta edição “Breves considerações acerca da Província Cisplatina: 1821-1828” trata brevemente dos primeiros anos do atual Uruguai como província do Império brasileiro, após articulações políticas do general Carlos Frederico Lecor, além da guerra que culminou com a criação do citado país platino há 175 anos e envolveu o Brasil e a Argentina no primeiro conflito externo de ambos como países independentes.

Na segunda parte da exposição virtual “Imagens de Portugal” encontram-se fotos da belíssima Aveiro, que, pelos seus canais, recebe o título de Veneza portuguesa.

Prof. Dr. António Manuel Hespanha (Universidade Nova de Lisboa)

A seguir, a entrevista que o historiador António Manuel Hespanha, da Universidade Nova de Lisboa, concedeu a Revista Tema Livre, realizada no dia 29 de julho, durante o XXII Simpósio Nacional de História.

 

O professor António Manuel Hespanha durante conferência no Simpósio.

O professor António Manuel Hespanha durante conferência no Simpósio.

 

Revista Tema Livre – Qual o tema da sua conferência no XXII Simpósio Nacional de História?

António Manuel Hespanha – Eu procurei refletir com os meus colegas acerca da natureza do poder. E a minha idéia principal é que o poder não está tanto no sítio onde nós julgamos que ele está, ou seja, no Estado, na polícia, nos tribunais, mas no fundo está em todo o lado, nas nossas próprias casas, nas relações com os nossos amigos, e que em casa um desses lugares ele se manifesta de uma forma diferente. E que é isso que precisa ser estudado pela história política.

RTL – Qual a diferença entre a história política e história do Estado?

Hespanha – É justamente isso, é que se reduzirmos a história política à história do Estado há muitos fenômenos de poder que ficam fora e que nós nunca vimos, e o que temos que ver e é explicativo da sociedade é justamente esse outro poder que está fora do Estado. Porque nem na sua vida nem na minha, o Estado, se calhar, nunca entrou. Nunca esteve na cadeia, nunca teve querelas com tribunais, enfim, o Estado na sua vida não entrou, na minha que sou bastante mais velho também praticamente não entrou, e, no entanto, nós não somos livres. Não somos livres por quê? Porque há muitos poderes na sociedade que não são o Estado. E é nesses que é preciso que nós, para criticarmos a sociedade atual ou para percebermos as sociedades históricas, é que temos que atentar.

RTL – Qual a inserção do historiador na sociedade portuguesa?

Hespanha – Os historiadores têm alguma importância na sociedade portuguesa e nas outras não portuguesas também, porque ajudam a perceber o presente. Os historiadores tratam sobre o passado, mas, no fundo, tem que servir, como toda a gente, ao presente e, por isso, se a história não tiver nenhum significado para o presente, para tornar a sociedade actual mais perfeita, menos injusta, a história não tem grande sentido. Ou seja, o historiador não deve ser só um amante de coisas antigas, do passado pelo passado, mas deve tentar perceber a sociedade em que vive, para melhorá-la naturalmente.

RTL – Como estão as relações acadêmicas entre Portugal e o Brasil?

Hespanha – Muito melhor que há uns anos. Hoje em dia há contactos e trocas regulares entre professores dos dois países e as coisas estão a melhorar muito, já não é a velha retórica da fraternidade, é mais do que isso, as pessoas estão a trabalhar mesmo.

RTL – Qual a importância, na sua opinião, de um evento como a ANPUH?

Hespanha – Bom, é muito grande, para mim é absolutamente inédito porque nunca tinha visto reunidos tantos professores universitários de história. Portugal é um país pequenino, o Brasil é um país muito grande, e tem muita gente e muito boa gente.

RTL – Finalizando, em Portugal há a discussão sobre a regulamentação da profissão do historiador? E se há, qual o seu posicionamento?

Hespanha – Não, não há. Esse problema em Portugal não se pôs sobre a regulamentação da profissão do historiador. Devo dizer que nem sei eu o que se quer dizer com isso. As regras da profissão do historiador nós sabemos, nós historiadores sabemos quais são, temos que ser honesto com as fontes, consultar as fontes, seguir as regras da arte… Mas isso não é nada que possa ser imposto por leis, digamos, está dentro do coração de cada historiador, da consciência de cada historiador, como fazer a história. Não creio que a lei possa adiantar nada.

Prof.ª Dr.ª Margarida Maria Dias (Universidade Federal da Paraíba)

Abaixo, a entrevista realizada pela Revista Tema Livre no dia 28 de julho na UFPB com a historiadora Margarida Maria Dias, coordenadora do XXII Simpósio Nacional de História e vice-presidente da ANPUH.

A Prof ª. Drª. Margarida Maria durante pronunciamento na abertura do Simpósio.

A Prof.ª Dr.ª Margarida Maria durante pronunciamento na abertura do Simpósio.

Revista Tema Livre – Primeiramente, qual a importância do evento para a região?

Margarida Maria Dias – A importância é muito grande. É um evento nacional, mas com convidados de muitos outros países. Estão hoje aqui representados todos os estados da federação, então é importante para a região, para o Estado, para a cidade de João Pessoa, não só pela relevância para a pesquisa histórica mas, também, para a divulgação do que é feito na nossa terra, da nossa cultura e dos próprios avanços da pesquisa histórica aqui no Nordeste.

RTL – E quais seriam esses avanços?

Dias – Olha, nós conseguimos uma coisa muito interessante aqui no Nordeste que foi a união dos núcleos regionais da ANPUH. Como resultado, nós temos uma troca de informação muito importante e uma troca de experiências também muito interessante. Então é muito bom, por exemplo, a gente saber que muitos colegas estão atuando em prefeituras, em cidades menores organizando arquivos, organizando fontes orais, organizando arquivos particulares, que possibilitam a escrita da história a nível local. E é interessante isso para o surgimento de outras histórias, não só dessa história tradicional, mas de outras histórias, de outros grupos, de comunidades, de movimento de trabalhadores e tal.

RTL – Quais são as atividades previstas para o evento?

Dias – Nós temos previstas doze conferências, sessenta e um simpósios temáticos, que são os locais de apresentação de trabalhos dos profissionais de história, duzentos e vinte painéis de alunos de graduação em história, quarenta e cinco mini-cursos, e temos, ainda, atividades culturais e exposições, como da ANPUH 25 anos, Sertão bravuras e bravezas, e, também, uma peça de teatro que é feita por um grupo do curso de História daqui da UFPB, o grupo História e Arte, que vai ser apresentada com um texto de uma historiadora.

RTL – Quem é essa historiadora? Sobre o que é a peça?

Dias – A peça vai ser apresentada hoje (28/07) no Teatro Santa Rosa, que é um teatro do século XIX, muito bonito, foi uma forma também que nós encontramos de mostrar o teatro para vocês, e o texto é da professora Joana Neves, que é uma das organizadoras do evento, e que está neste momento apresentando trabalho.

RTL – E sobre os números do evento? Quantos inscritos? Quantos profissionais estão aqui apresentando trabalho?

Dias – Apresentando trabalho nós temos uma média de duas mil pessoas. Estudantes de graduação nós temos uma média de 220. Participando do evento nós temos mais ou menos cinco mil pessoas. Desses participantes três mil e quinhentos devem ser profissionais e mil e quinhentos estudantes.

RTL – Qual a sua opinião sobre o fato de pessoas que não tem formação em história – em graduação ou pós-graduação – atuarem escrevendo e utilizando o título de historiador?

Dias – Eu acho que a ANPUH tem que retomar essa luta, o ano passado, infelizmente, o projeto de reconhecimento da profissão de historiador foi arquivado, mas a gente precisa retomar isso. Como membro da direção nacional sempre estive muito sensibilizada a esta questão, e como vou continuar na diretoria nacional, pretendo, junto com os meus colegas, retomar essa luta, porque eu acho que é fundamental o reconhecimento da profissão, para a gente de fato qualificar e ter as garantias, embora isso não seja imediato. Não é só porque é historiador que escreve algo de qualidade, a gente tem que melhorar os cursos de graduação também. Eu acho que essa é uma luta que a gente vai precisar retomar urgentemente, porque realmente, história é uma coisa muito séria, o passado forma identidades, o passado forma uma série de referências, e a gente tem que tomar muito cuidado com isso.

XXII Simpósio Nacional de História

O XXII Simpósio da ANPUH, realizado em João Pessoa, no campus da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), no período de 27 de julho a 01 de agosto, contou com cerca de 5.000 participantes, entre eles pesquisadores brasileiros e estrangeiros, sendo este o maior evento da área de história no Brasil.

Sessão de abertura do XXII Simpósio Nacional de História.

Sessão de abertura do XXII Simpósio Nacional de História.

O evento, que contou com diversas conferências, simpósios temáticos, mini-cursos, e outras atividades, teve a sua abertura realizada no Espaço Cultural José Lins do Rego, no domingo à noite, a reunir, já aí, diversos pesquisadores, além de ter-se realizado a conferência de abertura do Simpósio com o prof. Dr. Edgar Salvadori De Decca, da UNICAMP e presidente da ANPUH (2001-2003), que discorreu sobre o tema do encontro: “História, acontecimento e narrativa.”

XXII Simpósio da ANPUH,

O Prof. Dr. Edgard Salvadori de Deca durante a abertura do evento.

Carla Ferretti Santiago, historiadora e professora da PUC-MG, em relação à importância do evento para os historiadores brasileiros afirma: “participo já há vários anos dos Simpósios da ANPUH, acho que eles são espaços de interlocução, de conhecimento das várias instituições do Brasil inteiro. São eventos grandes, por isso trazem uma série de problemas, mas vejo como espaço necessário para que os historiadores a nível nacional troquem suas experiências, então, sempre procuro estar presente para ver o que o meu colega do Rio Grande do Sul, de Goiás, de onde for, está fazendo.”

Pronunciamento do reitor da UFPB, prof. Jader Nunes de Oliveira, na solenidade de abertura.

Pronunciamento do reitor da UFPB, Prof. Dr. Jader Nunes de Oliveira, na solenidade de abertura.

Soma-se, ainda, que durante o Simpósio foi empossada a nova diretoria nacional da ANPUH, com a seguinte composição:

 

Presidente: Luis Carlos Soares – UFF

Vice-Presidente: José Miguel Arias Neto – UEL

Secretário Geral: João Pinto Furtado – UFMG

1º Secretário: Tereza Malatian – UNESP/Franca

2º Secretário: Margarida Maria Dias de Oliveira – UFPB/UNIPÊ

1º Tesoureiro: John Monteiro – UNICAMP

2º Tesoureiro: Antonio Carlos Amador Gil – UFES

 

Assim, o XXII Simpósio da ANPUH, durante uma semana, proporcionou a troca de experiências entre grandes nomes da história, não só do Brasil, mas, também, do exterior. O próximo evento nacional, em 2005, realizar-se-á em Maringá, no Paraná, sendo 2004 o ano para os eventos regionais, que, no caso do Rio de Janeiro, terá a UFRJ como ponto de encontro.

 

Entrevistas realizadas durante o XXII Simpósio Nacional de História:

António Manuel Hespanha

Carla Ferretti Santiago

James N. Green

Margarida Maria Dias

Para mais entrevistas com historiadores na Revista Tema Livre, clique aqui.

Para a leitura da cobertura de outros eventos, clique aqui.

Imagens de Portugal: Aveiro, a Veneza portuguesa

Canal Central de Aveiro.

Canal Central de Aveiro.

Moliceiros no canal Central de Aveiro.

Moliceiros no canal Central de Aveiro.

 

Aveiro, conhecida desde 959 pelo testamento da condessa Mumadona Dias, localiza-se a 68 km ao sul da cidade do Porto e é conhecida como a Veneza portuguesa pelos seus belos canais. A cidade também dá nome ao distrito de 2.808 km², que, a seu turno, abriga dezenove municípios, a saber-se: Águeda, Albergaria-a-Velha, Anadia, Arouca, Aveiro, Castelo de Paiva, Espinho, Estarreja, Ílhavo, Mealhada, Murtosa, Oliveira de Azeméis, Oliveira do Bairro, Ovar, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Sever do Vouga, Vagos, Vale de Cambra.

 

Construções Art Nouveau junto ao canal Central de Aveiro.

Construções Art Nouveau junto ao canal Central de Aveiro.

Canal do Cojo.

Canal do Cojo.

 

Dentre os diversos aspectos históricos de Aveiro pode-se destacar que, no reinado de D. José I (1750 – 1777), a cidade mudou de nome. Passou, então, a chamar-se Nova Bragança (1759), em função do Processo dos Távoras, que, como um dos seus resultados, teve a execução pública do Duque de Aveiro, considerado culpado pela tentativa de regicídio. Com a queda de Pombal – importante articulador para que o processo resultasse na pena capital aos seus inimigos políticos – e a instalação do reinado de Dona Maria I (1777-1816) – opositora às ações do ministro de seu pai – a cidade tem o seu antigo nome restituído, Aveiro.

 

Um dos canais de Aveiro.

Um dos canais de Aveiro.

Entroncamento dos canais Central e das Pirâmides.

Entroncamento dos canais Central e das Pirâmides.

 

Além do exposto, destaca-se que uma das atrações de Aveiro é o seu museu. Este está instalado no antigo Convento de Jesus, vinculado à ordem dominicana, onde a infanta Dona Joana, da dinastia de Avis e filha de D. Afonso V (1438 — 1481), adentra em 1472, vindo a falecer, neste local, quase vinte anos depois, em 1490. Foi, posteriormente, no século XVII, beatificada por Roma. Popularmente, é conhecida como a Princesa Santa Joana.

 

Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus.

Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus.

Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus.

Museu de Aveiro, antigo Mosteiro de Jesus.

Vista parcial da Catedral de São Domingos a partir do Museu de Aveiro.

Vista parcial da Catedral de São Domingos a partir do Museu de Aveiro.

 

Por fim, observa-se que Aveiro possui uma universidade, que, por sua vez, leva o seu nome. A culinária da cidade também merece destaque, sendo a localidade conhecida pelos deliciosos ovos moles, uma especialidade local, cuja receita é atribuída às freiras. Segundo a tradição, as religiosas utilizavam a clara de ovo para engomar suas vestimentas, enquanto que, para evitar o desperdício, as gemas eram usadas para o doce. Com a extinção dos conventos locais, os ovos moles mantiveram-se na culinária lusa em virtude das pessoas que foram educadas pelas freiras mencionadas anteriormente.

 

Aspecto de casa em Aveiro.

Aspecto de casa em Aveiro.

Detalhe de casa em Aveiro.

Detalhe de casa em Aveiro.

 

 
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