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Antiguidade Clássica

 

Grécia
A civilização grega surgiu ao sul da península balcânica, no Mediterrâneo. Em função do seu solo pobre, uma saída encontrada pelos gregos foi o comércio marítimo e a expansão para outros territórios, a estender-se, então, por diversas ilhas da região e por pontos litorâneos da Ásia Menor (atual Turquia). Semelhantemente a outras civilizações da antiguidade, o que comumente se chama de Grécia Antiga era composta, grosso modo, por várias cidades-estados, denominadas pólis (singular)/póleis (plural), que começaram a surgir em c.2000 a.C. Cada pólis tinha a sua própria autonomia política, econômica e administrativa. Em comum, tinham a religião, o idioma e a organização familiar e econômica.
Da Grécia Antiga, a sociedade ocidental herdou, no âmbito cultural, a filosofia, que buscava entender o mundo de forma racional, e teve em Sócrates, Platão e Aristóteles os seus principais filósofos. Além disso, destaca-se o teatro, que tinha a função educativa e repercutia fortemente entre a população. À época, os atores eram todos homens e interpretavam com máscaras. Os gêneros teatrais eram a comédia e a tragédia, sendo que várias peças chegaram à atualidade, como Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, e Prometeu Acorrentado, de Ésquilo. 

 

A divisão usual da História da Grécia é a que segue-se:

 

 

Período Homérico (Séculos XII a.C. – VIII a.C)
Dá-se tal nome pelo fato das obras de Homero (Ilíada, que narra a guerra de Troia) e a Odisseia (dedicada ao retorno do herói Ulisses para Ítaca, sua ilha de origem) terem servido como importantes fontes históricas para a reconstituição de sua História.

 

 

Arcaico (entre os séculos VIII a.C. – VI a.C.)
Sucintamente, nessa fase houve o surgimento da pólis e a fundação de colônias em partes da atual Itália e Turquia. A aristocracia agrária comandava a política grega e as cidades-estados – chegaram a mais de uma centena, sendo as mais conhecidas as rivais Esparta (na península do Peloponeso e que tinha a especificidade da agricultura ser uma das principais fontes de sua economia. Além disso, era uma sociedade extremamente militarizada) e Atenas (na península balcânica e com economia voltada, também, ao comércio marítimo).

 

 

Clássico (séculos V a.C. – IV a.C.)
A este período costuma-se vincular o apogeu da democracia na Grécia Antiga, mais especificamente em Atenas. Os cidadãos gozavam de ampla liberdade e o voto era direto e universal para todos. Entretanto, é válido destacar quem os atenienses entendiam por cidadão. Esses eram os homens acima de 18 anos e filhos de pais atenienses e livres – a excluir, portanto, as mulheres e crianças, os escravos e estrangeiros, resultando que, em determinados momentos, em torno de 90% dos habitantes da pólis estavam alijados da participação política.
Concomitantemente, Atenas era o principal centro comercial e cultural grego, tendo, ainda, uma política expansionista, a interferir nos destinos das demais cidades-estados. É desse período a guerra do Peloponeso (431 – 404 a.C.), que foi protagonizada pelas duas principais cidades da Grécia Antiga, Atenas e Esparta. O conflito teve consequências negativas na civilização grega, como o seu enfraquecimento militar.

 

 

Helênico (séculos III a.C. – II a.C.)
Desse período destaca-se a invasão da Macedônia e o enfraquecimento de diversas cidades-estados. É dessa fase a atuação político-militar do macedônico Alexandre, o Grande, que uniu o seu povo e os gregos contra o inimigo que ambos compartilhavam, a Pérsia, liderada por Dario III. Alexandre impôs uma série de derrotas ao seu rival, conquistando a Ásia Menor (libertando, então, os gregos que ali viviam da dominação persa), o Egito (fundando, ali, Alexandria, que, rapidamente, se tornou o principal centro comercial do Mediterrâneo) e, por fim, derrotou os persas na Mesopotâmia, em 331 a.C.
Alexandre, o Grande, foi educado pelo filósofo Aristóteles e, assim, a cultura grega era-lhe familiar, tendo sido importante em sua formação intelectual e forma de interpretar as sociedades do seu tempo. Como estratégia de dominação de áreas tão distantes e distintas entre si, que iam do Mediterrâneo às raias do Himalaia e do rio Indo, o macedônico realizava a fusão das culturas grega com as locais, criando, assim, uma nova manifestação cultural, o helenismo, predominantemente grego, mas com uma gama de aspectos orientais.
Com o falecimento de Alexandre em 323 a.C., o seu Império foi dividido, e a Grécia viu-se separada do Egito, da Mesopotâmia e da Ásia Menor. O grande Império que passou a destacar-se com o fim do da Macedônia foi o Romano.

 

 

Roma Antiga
Primeiramente, a cidade de Roma foi a sede do maior império da Antiguidade. Em sua extensão máxima, o Império Romano chegou a ter, aproximadamente, 6.500.000 km2 (comparando-se a territórios da atualidade, o brasileiro tem 8.515.767,049 Km² e o da União Europeia 4.324.782 Km²). Detecta-se, então, que áreas tão distantes entre si como a Península Ibérica e a Palestina estiveram sob o controle romano. Em termos populacionais, o Império Romano chegou a ter 88.000.000 de almas (comparativamente, o Vietnã, 14º país mais populoso do mundo tem, aproximadamente, 90.549.390 habitantes. A Alemanha, 15º, 81.471.834. O Brasil, em 5º lugar, já ultrapassou a marca de 200.000.000, sendo que a região Sudeste traz números próximos ao do referido Império em seu auge populacional: 81.565.983).
Dos romanos, a sociedade ocidental contemporânea recebeu uma série de influências, como no campo do direito, no universo religioso, com o cristianismo, no âmbito linguístico (além dos idiomas neolatinos, do qual o português faz parte, línguas como o inglês e o alemão receberam influência do latim falado, escrito e propagado por Roma) e na organização política (apesar das diferentes releituras que cada sociedade fez de instituições e termos romanos ao longo do tempo, como senado, república, ditadura, plebiscito, etc).
Ainda no campo das releituras, mesmo séculos após o fim de Roma, em vários períodos históricos, são buscadas referências à referida sociedade. Movimentos intelectuais, como o Renascimento, tiveram a Roma Antiga como importante referencial. O fascismo de Mussolini utilizou-se desta civilização do passado, tratando, equivocadamente, a Itália fascista como uma espécie de sucessora do Império Romano.
Uma vez tendo exposto nos parágrafos anteriores aspectos introdutórios referentes a Roma Antiga, as próximas linhas serão dedicadas à divisão mais usual da História política Romana.

 

A ocupação da península itálica
Primeiramente, a ocupação da região data de, aproximadamente, 2.000 a.C. Os primeiros habitantes eram os italiotas (latinos, sabinos, samnitas, dentre outros) e, depois, após processo migratório, foram para a península etruscos (Norte) e gregos (Sul). Roma teria nascido como ponto estratégico para a proteção de povoações dos latinos situados na parte central da península. 

 

Monarquia (753 – 509 a.C.)
Pouco se sabe deste período, porém, é dele que surge a lenda de Rômulo e Remo, os dois irmãos que, abandonados, ainda bebês, foram amamentados por uma loba e, em sua fase adulta, protagonizaram a mítica história de fundação da cidade.
Acredita-se que Rômulo foi o seu primeiro rei. Posteriormente, vieram seis reis, uns de origem latina, outros, etruscas e, ainda, teria havido aqueles que eram sabinos. O rei de Roma tinha seu poder dividido com o legislativo, composto pelo Senado, que, a seu turno, congregava os patrícios mais destacados. Havia, também, a Assembleia Curiata, ou Cúria, que deveria ratificar ou não as decisões do Senado, sendo formada, semelhantemente, por patrícios.
Após o exposto, é válido perguntar-se, quem foram os referidos patrícios? Qual sua posição na hierarquia social da monarquia romana? Além da política, a que mais dedicavam-se nesta sociedade do passado? Resumidamente, estes indivíduos eram membros da aristocracia rural e estavam no topo da pirâmide social. Além deste grupo, a sociedade romana era composta por plebeus, que se dedicavam ao comércio, à agricultura, ao artesanato, ao pastoreio, e eram o grupamento mais numeroso de então. Os clientes viviam debaixo das redes de proteção de um patrício e, em troca, ofereciam serviços como militares e administrativos. Por fim, na base da pirâmide social, estavam os escravos, provenientes de guerras ou de plebeus endividados.
Em 509 a.C., o rei de Roma era de origem etrusca, porém, em um contexto em que a península itálica assistia à decadência do Império Etrusco. Aproveitando-se de fatores internos e externos a Roma, os senadores conseguiram depor o monarca e, através de um golpe, estabeleceram a República. O poder político já não precisava ser compartilhado com o rei e os patrícios fortaleceram-se ainda mais. 

 

República (509 – 27 a.C.)
República, do latim, res publica, ou seja, coisa pública. O Senado era a sua principal instituição, legislando e decidindo os rumos internos e externos de Roma. As Assembleias votavam projetos, tratavam de assuntos religiosos e eram responsáveis pela nomeação de representantes de cargos públicos – como os magistrados (compostos, por exemplo, por cônsules, que estavam à frente do Senado e da Assembleia, pretores, vinculados à administração da justiça e censores, conectados ao censo, à contagem da população, e definidoras de critérios que mensuravam a renda dos romanos).
Neste período, o poder dos patrícios era significativamente forte e estes tinham importante participação nas instituições políticas de Roma. As desigualdades entre o mencionado grupamento social e os plebeus resultaram em convulsões político-sociais, que resultaram em benefícios de indivíduos pertencentes à plebe na sociedade romana. Como exemplo houve a participação no Senado, a possibilidade de realização de casamentos entre patrícios e plebeus (Lei Canuleia, 445 a.C.), o fim da escravidão por dívidas (Leis Licínias, 367 a.C.), entre outros.
Ao longo dos séculos que compuseram a República, a plebe logrou direitos na sociedade romana e algumas possibilidades de ascensão social. Agrega-se que, nesta fase, Roma conquistou toda a península itálica, a Ibérica, Grécia, partes do atual Oriente Médio e ocorreram as Guerras Púnicas (em função da expansão e consequentes conflitos com os cartagineses, de origem fenícia).
Sucintamente, a referida expansão implicou em uma série de mudanças na sociedade romana. O aumento do número de escravos levou ao desemprego em diversos setores. Habitantes de várias cidades migraram em direção ao interior. O comércio entre o centro do Império e as províncias fez surgir abastados negociantes interessados em participar da definição dos rumos políticos de Roma, o que não interessava aos patrícios. Estas transformações associadas à desigualdade social, ao crescimento desordenado das cidades e à ausência de terras para os cidadãos contribuíram enormemente para o aumento da tensão social e houve o consequente enfraquecimento da República. 
Concomitantemente, em razão das diversas conquistas de Roma, os militares ganharam destaque nessa sociedade. O prestígio desse segmento social levou-o a intervir mais fortemente na política e, na década de 80 a.C., o general Sila tornou-se Ditador. Após sua saída do poder, novas convulsões políticas, até que, em 60 a.C., uma junta militar composta por Júlio César, Pompeu e Crasso, conhecida como o Primeiro Triunvirato, passou a controlar a República. No entanto, a estabilidade não foi duradoura.
Crasso faleceu em 53 a.C. e, em seguida, Júlio César e Pompeu passaram a disputar o poder, até que César proclamou-se, em 46 a.C., Ditador Vitalício, no entanto, neste contexto de instabilidade, seu governo não foi duradouro. O Senado opunha-se à concentração de poder nas mãos do ditador e, então, houve a conspiração em que Brutus e Cássio assassinaram Júlio César nas escadarias da instituição.
Pensando, com o citado plano, que retomaria o controle da República, o assassinato elaborado pelo Senado teve efeito oposto. A morte de Júlio César causou comoção em Roma, o que levou os seus partidários ao poder, através da criação do Segundo Triunvirato. Seus membros eram Marco Antônio, Otávio e Lépido. Porém, um novo governo não significou estabilidade política.
Lépido foi afastado do poder. Marco Antônio tornou-se responsabilidade pela parte Oriental de Roma. Otávio, da Ocidental. Entretanto, a divisão não impediu conflitos entre os membros do Segundo Triunvirato. Marco Antônio, aliado de Cleópatra VII, rompeu com Otávio. O resultado foi favorável a este que acabou por receber, do Senado, os títulos de príncipe e de imperador. A partir daí, Otávio intitulou-se Augusto, o divino. Iniciava-se, assim, o Império Romano.  

 

Império (27 a.C. – 476 a.C.)
Este período é subdivido em Alto Império (século I a.C. – III d.C.) e Baixo Império (século III – V d.C.). Na primeira fase, a expansão territorial romana prosseguiu e houve o desenvolvimento econômico, o comércio prosperou com a construção/aperfeiçoamento de portos e estradas e houve importante desenvolvimento intelectual, que, como exemplo, podem ser citadas as obras do poeta Virgílio, do escritor Horácio e do historiador Tito Lívio.
Durante o governo de Otávio Augusto (27 a.C. – 14 d.C.), personagem tido como o primeiro imperador de Roma, houve, na Palestina, o nascimento de Jesus Cristo, personagem entendido pelos cristãos como o messias, a segunda pessoa da Trindade, o Deus que se fez homem para, na Cruz, expurgar os pecados da humanidade, salvando, então, aqueles que, pela fé, o reconhecerem como Senhor de suas vidas, e, ainda, o Cristo que, ao terceiro dia, ressuscitou e hoje (e para sempre) reina no topo de toda “hierarquia” espiritual e terrena. Afora aspectos doutrinários, ressalta-se a importância do credo – mesmo que, muitas das vezes, modificado ao longo dos séculos – para a formação da sociedade Ocidental.
Ainda no que refere-se ao cristianismo, no Alto Império houve o governo de Nero (54 d.C. – 68 d.C.), o último imperador da dinastia julio-claudiana, que, em torno de 64 d.C., iniciou implacável perseguição aos cristão pelo fato do grupo adorar somente a um único Deus (trino, formado pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo) e, assim, não aderir aos deuses romanos. Séculos depois, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império. 
Comumente, quando trata-se desse período, ainda aborda-se a importância da mão-de-obra escrava para a economia imperial, veicula-o à política do “pão e circo” e, também, à utilização do latim como língua oficial do Império, com o objetivo de unificar terras tão distintas e distantes entre si. A centralização político-administrativa é, igualmente, tida como uma das características desta fase.
Em relação à decadência do Império Romano, esse processo não deixa de estar associado a fatores como a sua própria expansão. Para a manutenção dos custos de efetivos militares em áreas tão vastas, eram necessários vultuosos recursos financeiros. Concomitantemente, houve a redução no número de pessoas escravizadas, diminuindo a sua oferta e havendo a elevação de seu preço. O trabalho livre tornou-se mais barato e, pouco a pouco, os mais pobres foram substituindo os cativos. Muitos destes homens mais desfavorecidos encontravam-se em áreas rurais e trabalhavam em troca de proteção e sobrevivência, não podendo abandonar as terras, sendo que essa dramática situação acabou por tornar-se hereditária.
A crise atingiu a produção de alimentos, com consequente aumento dos preços e inflação, queda do consumo, o abandono, por parte de significativos contingentes demográficos, das cidades em direção ao campo e, por fim, parte dos recursos financeiros restantes foram canalizados para a parte oriental do Império, onde eram obtidas mercadorias daquela região.
Se por um lado os romanos viam-se obrigados a enfrentarem sérias adversidades econômicas, por outro havia uma crise política, com conflitos entre os setores sociais que controlavam o Império, a saber-se, os senadores e os chefes militares. A movimentação de tropas levou que fronteiras ficassem desguarnecidas, contribuindo para que os povos classificados como bárbaros pelos romanos gerassem distúrbios nas raias do Império.
Além disso, buscando atender aos interesses de diversos atores políticos e amenizar a crise, o imperador Diocleciano (284 – 305) criou a Tetrarquia, dividindo o Império entre quatros generais, minimizando substancialmente o poder do Senado. O imperador ficou responsável pela administração da parte Oriental e Maximiano da Ocidental, sendo que cada um deles tinha o auxilio de um general, designado césar. O império passou a ter, então, dois augustos e dois césares.
Esta primeira divisão não foi duradoura. O imperador Constantino pôs termo à Tetrarquia, passando a reinar sozinho, anulou, em 313, a perseguição aos cristãos, permitindo-lhes a liberdade religiosa e, ainda, levou, em 330, a capital do Império para a região mais rica, o Oriente, com a criação de Constantinopla (atual Istambul).
Paralelamente, a parte ocidental esfacelava-se e os bárbaros adentravam territórios de Roma. Buscando conter o processo de decadência romana, o imperador Teodósio transformou o cristianismo na religião oficial do Império, em 391, bem como o dividiu novamente em duas partes. A ocidental com capital em Roma e a oriental em Constantinopla. O Império do Ocidente durou até 476, quando os bárbaros conquistaram a sua capital. O do Oriente teve vida mais duradoura, até o século XV, sob o nome de Império Bizantino.

Antiguidade Oriental

Antiguidade Oriental
Como já apontado, nesse recorte estão inseridas uma série de sociedades. No entanto, pela vastidão e complexidade do tema, na presente seção serão apresentadas algumas delas, tendo como critério de seleção aquelas que são mais difundidas junto à sociedade contemporânea e, usualmente, são mais abordadas em livros, teses e dissertações.

 

Egito
Normalmente, o que é designado como Egito Antigo pode ser dividido em vários períodos, devido às características de cada uma de suas fases, dispensando, consequentemente, um entendimento monolítico de todas as fases da História desta sociedade do passado. A seguir, uma divisão da História do Egito Antigo proposta pelo egiptologista J. Martin Plumley, da Universidade de Cambridge:


Baixo Egito e Alto Egito
Unificação: 3.200 – 2.800 a.C.

Período Arcaico 
(c.3.100 – 2.700 a.C.)

Reino Antigo: Mênfins 
(c. 2.700 – 2.500 a.C.)

Reino Médio: Tebas
(c.2.134 – 1786 a.C.)

Reino Novo (c.1575 – 1087 a.C.)

Período Tardio (c.1087 – 332 a.C.)

Nova divisão
Alto e Baixo Império

Conquista pelo exército da Pérsia (525 a.C.)

Alexandre o Grande (332 a.C.)/Ptolomeu (322 a.C.)/Província Romana (30 a.C.)

A princípio, mais do que datas, nomes e decorar as capitais de cada fase da História do Egito, o importante é entender, a partir desse caso, que cada fase vai guardar particularidades, mas, também, semelhanças uma entre as outras. Além disso, que as sociedades não são monolíticas e que, com o passar do tempo, mesmo com fatores de continuidade, existem os de ruptura, que caracterizam, assim, cada época.
Resumidamente, o Egito desenvolveu-se ao longo do Nilo, que servia como meio de transporte, lingando o Alto e o Baixo Egito, grosso modo, Norte e Sul, permitindo a extensão da fronteira sul até o atual Sudão – de onde os egípcios chegaram a extrair ouro. Em virtude do rio, os egípcios desenvolveram a irrigação para incrementar a agricultura, diques para conter suas cheias e reservatórios de água. No âmbito externo, tinham contato e transações comerciais com povos que habitavam a região do atual Oriente Médio.
Agrega-se que o Egito teve mais de trinta dinastias, faraós (reis com caráter divino, que recebiam a adoração dos seus súditos e, ao mesmo tempo, eram sumo sacerdotes), sendo este indivíduo considerado o próprio Estado, que, a seu turno, era teocrático. No topo da pirâmide social estavam, além dos faraós, os sacerdotes, a aristocracia guerreira e os escribas. Em uma economia agraria e pastoril, a base era formada por artífices, camponeses e escravos.
Por fim, sobre o Egito Antigo é correto afirmar que, neste período histórico, havia significativo conhecimento da medicina (comparativamente a outros povos da época) em virtude do processo de mumificação (que envolvia aspectos religiosos) e consequente contato com o corpo humano; foram construídas as conhecidas pirâmides de Gizé (que são templos funerários e pela necessidade de fazer obra de tão alto porte em curto período, a construção impactou negativamente a economia); o emprego da matemática para a construção das pirâmides; e até mesmo indícios de atividades de proteção/amparo que alguns autores fazem analogia com atividades securitárias da atualidade, pois pedreiros contribuíram para uma espécie de fundo coletivo, a fim de ajudá-los em casos de “acidentes de trabalho”, como os que recorrentemente ocorriam nas obras das pirâmides.

 

 

Mesopotâmia

Sobre a Mesopotâmia menciona-se, primeiramente, que o termo é proveniente do grego, significando, em português, entre rios. Neste caso, refere-se à área entre o Tigre e o Eufrates – os mesmos rios que estão presentes na narrativa bíblica (Genesis 2), sendo esta a região da localização do Jardim do Éden de acordo com o livro sagrado cristão. Na atualidade, a Mesopotâmia antiga confunde-se com parte do território do Iraque.
Grosso modo, a Mesopotâmia foi ocupada por vários povos. Os mais citados são os sumérios, acádios, amoritas, assírios e caldeus, que desenvolveram, por vários séculos, atividades mercantis, culturais (como a escrita e a literatura) e político-administrativas, como as diversas teocracias espalhadas pela região.
Em torno de 2.000 a.C., a cidade da Babilônia iniciou um significativo processo de desenvolvimento e, ainda, exerceu influência nas urbes em seu entorno. Porém, foi no período do reinado do amorita Hamurábi (c.1792 – 1750 a.C.), que o poderio babilônico expandiu-se ao longo da Mesopotâmia.
Sobre o referido rei, este é conhecido pelo Código do Hamurábi, encontrado em 1901, em Susa, no atual Irã, por arqueólogos franceses, sendo, hoje, parte do acervo do museu do Louvre, em Paris. Entendido como o principal legado mesopotâmico em termos de lei, com 282 artigos, que versavam sobre aspectos relativos à medicina de então, questões familiares, como o divórcio (podendo este ser, inclusive, demandado pela mulher), econômicas (com a previsão de que participantes de um empreendimento comercial, como mercadores, se associassem para ressarcir aquele que sofresse alguma avaria em suas viagens comerciais) e políticas, contendo as obrigações do líder máximo da Babilônia para com os seus súditos.
Ainda sobre o Código, com esse o rei agia no sentido de promover a unidade jurídica dos seus domínios, bem como este conjunto de leis tinha como princípio a leio de Talião (palavra derivada do latim talionis, que significa “como tal”, “idêntico”), ou seja, “Olho por olho, dentre por dente”. Assim, a punição baseava-se na reciprocidade do crime e da pena.
Também durante o seu reinado, Hamurábi teve como princípios políticos-administrativos a organização do Estado, a burocracia centralizada e o objetivo de recompor economicamente os seus domínios. Concomitantemente, o rei esteve envolvido em vários conflitos pelo controle da Mesopotâmia, sendo que, após a morte de Hamurábi, a Babilônia entrou em decadência.
Entre os séculos IX e VIII a.C. os assírios dominaram regiões da Babilônia, bem como da Síria, Palestina e Egito. Ao mesmo tempo associado por parte da historiografia relativa à Antiguidade à extrema violência de suas ações militares, o Império Assírio teve em Nínive uma grande biblioteca, cujo acervo estava escrito em tabletes de argila – fato, inclusive, que permitiu que parte de suas obras chegasse à atualidade.
Com o óbito do rei assírio Assurbanipal (690 – 627 a.C.), o caldeu Nabopolossar (625 – 605 a.C.) liderou, juntamente com outros povos da Mesopotâmia, levante contra o domínio dos assírios. Nínive foi destruída e Nabopolossar migrou para a Babilônia e transformou a cidade na capital do segundo Império da Babilônia, também designado como Neobabilônico. Nessa época houve, no período de 605 – 562 a.C., o reinado de Nabucodonosor II (c.634 – 532 a.C.) – personagem que também consta da narrativa bíblica – sendo uns dos agentes responsáveis pelo exílio do povo hebreu na Babilônia.
O Império Neobabilônico contribuiu para o conhecimento científico de então. Em virtude dos credos religiosos vinculados aos astros, na Babilônia de Nabucodonosor II desenvolveram-se estudos sobre os corpos celestes. Assim, a partir de questões vinculadas ao universo religioso, houve o desenvolvimento da astronomia e da matemática. Ampliou-se, igualmente, nestes tempos, os saberes relacionados à medicina e à farmacologia.
A cidade da Babilônia chegou a ter mais de 200.000 habitantes – aproximadamente o mesmo número de almas que municípios brasileiros como Cabo Frio (RJ), Passo Fundo (RS) e Chapecó (SC) abrigam e, na Europa, Cascais (Portugal), Bourdeaux (França) e Pádua (Itália) possuem. Apesar do alto número de habitantes para a época e do desenvolvimento intelectual que a Babilônia logrou, o segundo Império teve duração efêmera. Em 539 a.C. foi invadido pelos persas, liderados por Ciro e, a partir de 330 a.C., a região caiu sob o jugo grego. 

 

 

 

Hebreus

Também originários da região da Mesopotâmia, mais precisamente de Ur, na Caldeia, estão os hebreus. Não é a única, mas uma importante fonte (e de fácil acesso à sociedade ocidental contemporânea) para a reconstituição de parte da história deste povo é a Bíblia. Encontra-se, no Velho Testamento, mais especificamente no livro de Gênesis, o surgimento dos hebreus, com o patriarca Abraão (c. 1.800 a.C.) – sendo o personagem bíblico contemporâneo ao amorita Hamurábi, trabalhado anteriormente.
Abraão estava inserido em uma cultura politeísta e, conforme relatado em Gênesis, YHWH (Javé/Jeová/Em hebraico, יהוה‎) revelou-se ao patriarca como o único Deus, sendo, à altura, o monoteísmo algo extremamente novo e uma especificidade do povo que estava a ser formado a partir do caldeu. Na aparição, Deus prometeu a Abraão e à sua descendência as terras da Palestina, bem como criar, a partir deles, um povo numeroso, incontável como as estrelas do céu.
Uma vez na terra prometida, Abrãao e seus descendentes viviam da agricultura e do pastoreio, até que, em torno de 1.700 a.C., em um contexto de adversidades, estes emigraram para o Egito, onde terminaram sendo escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos.
Por volta de 1.300 a.C., segundo a tradição judaico-cristã, Deus escolheu Moisés como libertador dos hebreus. Na fuga do Egito e da perseguição das tropas de Faraó, de acordo com o livro de Gênesis, Deus abriu o mar Vermelho para os hebreus fugirem do cativeiro egípcio. No deserto, deu-lhes os Dez Mandamentos. A partir deste código de conduta, os hebreus ganhavam regras religiosas, como cultuar, adorar e servir somente ao único e verdadeiro Deus, YHWH, que havia revelado-se séculos antes a Abraão, e, também, normas morais, como não matar, não furtar, não adulterar e não cobiçar o que é do próximo.
Após a morte de Moisés, seu sucessor, Josué, liderou os hebreus na missão em direção à Terra Prometida. O livro de Josué narra estes adventos, encontrando-se aí episódios como a destruição das muralhas de Jericó (tida como a mais antiga cidade da História, tendo surgido na Palestina em torno de 9.000 a.C.) e a conquista da terra que Deus prometera séculos antes ao patriarca Abraão.
Uma vez estabelecidos na Terra Prometida, os hebreus foram governados por Juízes (uma teocracia que durou aproximadamente 450 anos) e, posteriormente, pelos reis Saul (c.1020 a.C), Davi (1004 – 965 a.C.) e Salomão (965 – 930 a.C.). Esses reinados duraram cerca de 100 anos, perpassando os séculos XI e X a.C. Segundo a tradição bíblica, Salomão é o homem mais rico de toda a Terra até os dias de hoje. O reinado de Davi foi um período de apogeu dos hebreus – inclusive a bandeira do atual Estado de Israel faz menção ao referido monarca, com sua estrela gravada. Também foi nos tempos deste rei que Jerusalém tornou-se a capital do reino de Davi.
Segundo os relatos bíblicos, Davi errou inúmeras vezes, porém, o seu verdadeiro arrependimento e a sua intensa busca a YHWH acabaram por fazer-lhe um homem segundo o coração de Deus. Desse modo, surgiu a promessa divina de levantar da descendência de Davi o Messias (II Samuel 7:12), o redentor de Israel e da humanidade, o Cristo – para os cristãos, esse descendente é Jesus, o primogênito de José e Maria (ambos descendentes de Davi), o Deus que encarnou e nasceu da virgem para salvar o homem de suas misérias terrenas e espirituais, bem como para dar a salvação eterna a todo aquele que crer que Ele seja o Messias  (Mateus 1:1, Lucas 3:23-38, Atos 2:29-30, 2 Timóteo 2:8). O Jesus dos cristãos ainda foi definido por João Batista como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”(João 1:29).
Retomando os tempos de Salomão, mais especificamente à questão da sucessão ao trono de Israel, pode-se afirmar que este foi um processo turbulento, que culminou na divisão do antigo reino de Davi em dois: o do norte, Israel, com capital em Samaria, tendo como rei Jeroboão, e o do sul, Judá, sendo Jerusalém a sua capital, e Roboão, filho de Salomão, o seu rei. As tramas envolvendo a cisão de Israel e os aspectos políticos e militares desse tema da História estão no Antigo Testamento, mais especificamente em I Reis.
Na década de 720 a.C., a expansão dos assírios levou-os a conquistar Israel, levando consigo vários dos seus habitantes para a Assíria. Em 586 a.C., durante o reinado de Nabucodonosor II, o Império Neobabilônico conquistou Judá, destruiu Jerusalém e levou para o exílio boa parte da população hebreia. Só permaneceram na região os mais pobres. Os mencionados acontecimentos estão em II Reis, bem como nos livros bíblicos de diversos profetas, que, segundo a tradição judaico-cristã, foram usados por YHWH para advertir aos hebreus que os seus maus caminhos, contrários aos padrões espirituais e morais divinos, culminariam na sua subjugação aos seus inimigos. Assim, Amós e Oseias profetizaram para Israel e Joel, Isaias, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias e Jeremias trouxeram revelações divinas aos habitantes e lideres políticos de Judá.
No exílio babilônico surgiram conhecidos personagens da tradição judaico-cristã, como, por exemplo, o profeta Daniel, que por ser de família abastada de Jerusalém fez parte da corte de Nabucodonosor II; seu contemporâneo Ezequiel, que, no exílio, profetizou o retorno dos cativos à sua terra de origem; e Esdras e Neemias, que estiveram envolvidos no retorno dos exilados a Jerusalém – após decreto do rei da Pérsia, Ciro, de c. 538 a.C., que permitiu o retorno dos judeus à cidade santa.
A região da Palestina ainda passou pelos domínios persa (450 – 333 a.C.), macedônico (333 – 323 a.C.), egípcio (323 – 198 a.C.), sírio (198 – 166 a.C.) e romano (a partir de 63 a.C.).

 

 


Fenícios

Comumente, sobre os fenícios, esses estabeleceram-se, em aproximadamente 3.000 a.C., na área que abarca partes do que hoje é o Líbano e a Síria. Sua organização política dava-se através de cidades-estados, que, muitas das vezes, rivalizavam entre si. Economicamente, em função de ocuparem uma estreita faixa de terra do atual Oriente Médio e terem significativo território banhado pelo Mediterrâneo, a opção marítima foi adotada por este povo, que destacou-se pela atividade mercantil, estabelecendo uma série de colônias em áreas do norte da África e do sul da Europa.
Observa-se, então, que os fenícios chegaram a realizar intercâmbios comerciais com áreas tão distantes entre si como a Península Ibérica e o Reino de Israel. Além disto, entre os fenícios havia os trabalhos livre e escravo.
No que refere-se às principais cidades, podem ser mencionadas Biblos (2.500 a.C.), Sidon (1.500 – 1.300 a.C.) e Tiro (do século XII ao VI a.C.), que tiveram seu auge em função das atividades comerciais marítimas nos períodos apresentados. Por demandas da atividade mercantil, em substituição aos hieróglifos, os fenícios desenvolveram uma escrita própria, com 22 letras, que, posteriormente, foi adotado por gregos e romanos, resultando, em período bastante posterior, no alfabeto da língua portuguesa e, igualmente, de tantos outros idiomas do Ocidente.
A decadência de Tiro deu-se em função da concorrência de comerciantes gregos e de Cartago – fundada pelos fenícios no norte da África. Os cartagineses acabaram por conquistar diversas colônias fenícias em solos europeu e africano. Igualmente, a região ocupada pelos fenícios no atual Oriente Médio foi invadida por persas, macedônios e por Alexandre, o Grande.

 

 

Pérsia
De uma maneira geral, quando fala-se da Pérsia, faz-se analogia com o atual Irã, país que abriga parte importante dos vestígios da referida civilização antiga. No século VI a.C., tendo o imperador Ciro à frente, os persas estenderam-se em direção à Ásia Menor e à Babilônia. Cambises e Dario I, sucessores de Ciro e, respectivamente, seu filho e neto, expandiram a fronteira até o norte da África e alcançaram as margens do Danúbio, na Europa, e do Indo, na Ásia Central. Por outro lado, malograram no intento de conquistar a Grécia.
Resumidamente, a estratégia de dominação persa consistiu em negociações políticas com os elementos provenientes das áreas conquistadas, permitindo, assim, que diversos atores locais comandassem as regiões subjugadas e mantivessem suas tradições. Porém, não pode-se ignorar que os invasores estabeleciam exigências aos povos conquistados. Esses deveriam pagar tributos obrigatórios ao Imperador persa e, ainda, conviviam com a coerção militar.
Como os demais impérios e reinos tratados nos tópicos anteriores, o Persa também sucumbiu frente a uma nova força que surgia no mundo antigo: o Império Macedônico, em 330 a.C..

História de luto: faleceu, na tarde de hoje, o historiador Ciro Flamarion Cardoso

Niterói, 29 de junho de 2013

Na tarde deste sábado, 29 de junho, faleceu, aos 70 anos, um dos maiores historiadores brasileiros, o Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso, Titular de História Antiga e Medieval do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

Ciro nasceu em Goiânia, em 1942. Graduou-se em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1965, e doutorou-se na mesma área na Université de Paris X, Nanterre, em 1971. Realizou seu Pós-Doutorado na New York University, em 1984. 

Além disto, ao longo de sua trajetória, acumulou prêmios, publicou/organizou mais de 40 livros, formou doutores e foi professor da UFRJ, da PUC-Rio e de instituições na França e no México. À trajetória de Ciro agrega-se o desenvolvimento de pesquisas concernentes à Metodologia de Pesquisa Científica, à ocupação joanina da Guiana Francesa, à escravidão na América e ao Egito Antigo, tema ao qual dedicava-se nos últimos anos. 

O velório de Ciro será no domingo, 30 de junho, das 10 às 14h na capela 1 do Parque da Colina, em Pendotiba, Niterói. 

 

 

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História Antiga

Antiguidade

Em relação a esse período, normalmente, o seu corte temporal é do surgimento da escrita à queda de Roma, em 476, com a deposição de Rômulo Augusto, último imperador do Império Romano do Ocidente. A designação vem dos iluministas do século XVIII, inicialmente abarcando Grécia e Roma e, posteriormente, o Egito e o Oriente Médio. Atualmente, inclui-se nesta fase da História da humanidade, por exemplo, a África negra, os americanos Incas, Astecas e Maias, além da China e da Índia. Por fim, a temporalidade ora estudada pode ser dividida entre Antiguidade Oriental e Clássica.

a)   Oriental

      Egito
      Mesopotâmia
      Fenícia
      Israel


b)  Clássica
     Grécia
     Roma

 

 

Antiguidade Oriental

Antiguidade Clássica

 

Idade Média

300: Rise of an Empire

(Brasil, 300: A Ascensão do Império/Portugal, 300: O Início de um Império)
DIREÇÃO: Noam Murro/ROTEIRO: Kurt Johnstad, Zach Snyder
ELENCO: Eva Green, Sullivan Stapleton, Rodrigo Santoro, Callan Mulvey, Jack O’Connell, Lena Headey.
Produção: Estados Unidos, 2014 (147 min)

Cartaz do filme "300: Rise of an Empire"

Cartaz do filme “300: Rise of an Empire”

Com sangue digital a jorrar para todos os lados, saltos ao melhor (ou pior!?) estilo Matrix e a caricata turma do mal toda de preto (inclusive com suas exageradas maquiagens negras em torno dos olhos) chega aos cinemas brasileiros a continuação do já lamentável 300. O filme vai à historia para pegar personagens para contar a sua estória. Mandatários da Pérsia, Dario e Xerxes estão lá, ameaçando a Grécia, a democracia e a liberdade.

Pelo suposto diálogo com a historia, a película merece atenção. Uma interessante via de análise do filme é que muito do seu conteúdo vincula-se com dilemas atuais dos EUA. O inimigo que ameaça a Grécia – extremamente fácil para o expectador fazer analogias com os EUA de hoje – é a Pérsia, que corresponde, grosso modo, ao atual Irã. Além disto, é provável que para facilitar a associação dos nossos contemporâneos a calcanhares de Aquiles dos últimos governos norte-americanos, como terroristas e ditadores provenientes do Oriente Médio, a produção deu aos cruéis vilões de negro vestimentas que rememoram beduínos árabes.

Outro fator curioso é que o mocinho luta pela defesa da nação grega, por uma “United Greece”. Passa-se ao espectador a noção de que a Grécia antiga fosse um bloco monolítico e não um mosaico de cidades-estados, com similitudes, sem duvidas, mas, também, com uma multiplicidade de particularidades, conflitos e antagonismos. Agrega-se, ainda, que o espectador leigo recebe em seu colo um produto que dá a impressão de que a ideia de nação na Grécia antiga é a mesma da atualidade.

Por fim, a “United Greece” luta contra persas pela defesa da liberdade e da democracia, a desconsiderar por completo a especificidade da democracia ateniense, que não é a virgem imaculada que o senso comum pensa, pois, por exemplo, boa parte da população de Atenas estava excluída do voto. No entanto, mais uma vez, fica fácil ao espectador relacionar os dilemas políticos atuais dos EUA em relação à ditadura iraniana no conflito “United Greece” x “Pérsia”.

O ator brasileiro Rodrigo Santoro como o imperador persa Xerxes I

O ator brasileiro Rodrigo Santoro como o imperador persa Xerxes I

Mesmo desprovido de significativa qualidade artística, anacrônico e previsível, tudo vale apena se a alma não é pequena, como dizia Fernando Pessoa. Assim, compensa assisti-lo para divertir-se com os efeitos em 3D e, principalmente, para analisar o dialogo que Hollywood realiza entre tempos antigos e a atualidade, baseados nos interesses políticos e nas concepções político-culturais do próprio tempo presente.

Sala de aula: História – Introdução

sala de aula história mapa américasInicialmente, para uma breve reflexão sobre a História, é fundamental entendê-la como um processo em que há a interação de diversos aspectos da sociedade, como a política, a economia e a cultura. Estudá-la e realizar pesquisa nessa área do saber deve estimular a reflexão, a análise do passado e, também, do tempo presente – assim, nunca a interpretar a referida área como mera curiosidade sobre fatos de outrora.
Com a História não volta-se no tempo, mas com as fontes que o passado deixou (como  periódicos, cartas, diários, balanços contábeis, relatórios de empresas, processos judiciais, leis, ofícios, aquarelas, fotografias, romances, poemas…), os fatos de outrora são reconstituídos minuciosamente como em filmes e seriados de investigação criminal. Analisam-se, assim, outros tempos, outras formas de sociedade, indivíduos, grupos sociais, organizações empresariais, dentre outros.
Evidentemente, como em tantos outros processos de pesquisa de distintas áreas do conhecimento, na História há de indagar-se sobre a legitimidade da(s) fonte(s). O pesquisador deve analisar a subjetividade do material utilizado, as intenções do seu autor ao produzi-lo e as eventuais distorções que as fontes podem vir a conter. Enfim, não se pode aceitar os dados contidos nas fontes de pesquisa passivamente como se esses fossem os únicos portadores de toda a verdade. Comumente, a História é dividida em diversos períodos e para cada corte temporal é-se estabelecido um marco:

 

1) Pré-História ou Idade da Pedra, subdivida em:

a) Paleolítico (do grego: palaiós + lithos) ou Idade da Pedra Lascada

2,5 milhões a.C. – 10.000 a.C.

Nesta altura os humanos eram nômades, viviam da pesca, da caça e da coleta. Neste período desenvolveram-se, por exemplo, a pintura em cavernas, esculturas para cultos religiosos, ferramentas para a caça, etc.

 

b) Neolítico ou Idade da Pedra Polida

10.000 a.C. – 3.000 a.C.

Nesta fase, houve a sedentarização do homem e o consequente plantio agrícola, comércio, mesmo que a envolver o escambo, e o mutualismo, em que um conjunto de pessoas constituía reserva econômica para dividir o risco de um acontecimento não previsto, geralmente a envolver as atividades comerciais.

É, também, desta temporalidade, o surgimento dos primeiros núcleos urbanos na região do atual Oriente Médio: Jericó (c.9.000 a.C.) e várias outras cidades na Mesopotâmia (4.500-3750 a.C.), que centralizavam atividades políticas, econômicas, administrativas e religiosas. 

Essa época também assistiu à produção do fogo por atrito, à fundição de metais e ao aumento populacional em função da mencionada sedentarização. 

Iniciou-se, então, nesse período, sociedades mais complexas, que permitiram aos humanos de então a desenvolverem novos tipos de comunicação, que levaram à escrita. 

 

 

2) Período Histórico 

Tablete de argila cozida em escrita cuneiforme suméria.

Tablete de argila cozida em escrita cuneiforme suméria.

A partir de c.3.500 a.C.: 

Esse período ganhou essa denominação em virtude dos historiadores do século XIX, quando esses indivíduos acreditavam que só haveria a possibilidade de narrar a História de uma época apenas a partir da existência da escrita. Antes dessa não haveria como redesenhar a História de um determinado tempo. É no “período histórico” que surgiu, na região da Mesopotâmia, a escrita, denominada cuneiforme (do latim, cuneus).

 

Também, usualmente, divide-se o referido “período histórico” da maneira a seguir:

 

• Antiguidade (Marco histórico: queda do Império Romano, 476 d.C.)

• Idade Média (476 d.C. – 1453 d.C./Queda de Constantinopla)

• Idade Moderna (1453 – 1789/Revolução Francesa)

• Idade Contemporânea (1789 à atualidade)

 

 

Prof. Dr. José d’Encarnação (Universidade de Coimbra)

Entre os dias 22 e 26 de setembro de 2003 realizou-se no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ o evento, coordenado pela professora Dra. Norma Musco Mendes, “Testemunho epigráfico e o processo de romanização na Lusitânia”, onde o prof. Dr. José D’Encarnação, da Universidade de Coimbra, realizou diversas apresentações sobre o tema.

O nosso entrevistado leciona na citada universidade desde 1976, onde doutorou-se na especialidade de Pré-História e Arqueologia, além de ser professor catedrático da mesma e doutor honoris causa pela Universidade de Poitiers (França). Pertencente a diversas agremiações culturais, tanto em Portugal (como, por exemplo, a Associação Cultural de Cascais, que ele é fundador), como no exterior (França, Alemanha e Espanha), o prof. Dr. Encarnação também faz parte do conselho de conceituadas revistas, como a Archivo Español de Arqueología (Madrid), Phoînix (Rio de Janeiro), Veleia (Vitória, País Basco), Espacio, Tiempo y Forma (Madrid), Arqueohispania e Electronic Journal of Mithraic Studies (ambas revistas informáticas). Soma-se ainda que, o historiador, em 1994, foi agraciado com a medalha de mérito municipal de Cascais e a sua biografia consta do livro Personalidades da Costa de Estoril, I vol., Cascais, 1995.

Aproveitando a presença, no Brasil, do prof. Dr. Encarnação, a Revista Tema Livre, no dia 23, entrevista-o. A seguir, o professor discorre sobre a presença romana no território que é atualmente Portugal e os seus vestígios – visíveis até os dias de hoje, como, por exemplo, a cidade de Conimbriga –, além da sua atuação na mídia escrita e falada, e da relação entre internet e história.

Revista Tema Livre – Comente um pouco como se deu a presença romana no território do que é hoje Portugal.

José D’Encarnação – Bem, a Península Ibérica desde muito cedo foi atraída pelos romanos, não só pela sua posição estratégica de ligação entre o Mediterrâneo e o Atlântico, como também pelas riquezas que tinha. Riquezas agrícolas, designadamente a oliveira e a vinha, mas também pelos seus produtos minerais. Os romanos desde cedo sabiam que a Península Ibérica tinha produção de estanho, de cobre, de ouro, tanto que hoje as minas mais importantes do território que é atualmente português foram também exploradas pelos romanos. Portanto, logo após a Segunda Guerra Púnica, os romanos se instalaram na Península e se instalaram no território atualmente português, designadamente no litoral e, depois, foram penetrando pouco a pouco.

RTL – Quais seriam os principais vestígios da presença romana em Portugal?

Encarnação – Os vestígios que todo povo pode deixar quando vive em algum lugar durante muito tempo. Nós temos uma presença desde o século segundo antes de Cristo até o século quarto, quinto, altura das chamadas invasões bárbaras. Temos de todos os períodos, não há dúvida nenhuma, que, embora, as várias camadas arqueológicas, digamos assim, se tenham sobreposto umas as outras, o certo é que nós já encontramos vestígios da época republicana, mas claro, as mais visíveis são as do século quarto. Por exemplo, no sul de Portugal, as grandes vilas, que eram as casas residenciais dos romanos, com os mosaicos, porque, afinal de contas, se diz muitas vezes que o século terceiro foi um século de crise, não há dúvida que foi, porque houve uma certa instabilidade, havia um avanço dos ditos povos bárbaros sobre a fronteira romana, mas isso se fez sentir de modo particular na Península Itálica e, portanto, as pessoas mais importantes da Península Itálica, acabaram por ir, por exemplo, para a Península Ibérica. E nós, de facto, temos a afirmação arqueológica, não só pelas estruturas arquitetônicas mas, inclusivamente, pelos materiais móveis, ou seja, objetos encontrados de cerâmica, moedas e inscrições, que o século terceiro e quarto, designadamente o século quarto, foram períodos de grande desenvolvimento e, portanto, nós lá encontramos de tudo.

Quando eu tive a ocasião de dizer aos estudantes de pós-graduação sobre a grande diferença, se assim se pode falar, entre quem estuda história antiga no Brasil e quem estuda em Portugal é que nós, em Portugal, temos romanizaria ao pé de nós. Quer dizer, eu, por exemplo, escavo uma casa de campo romana que se situa a dez minutos da minha casa, e eu sei que os romanos estiveram ali, viveram ali, que um dia a senhora eventualmente se aborreceu e que deitou fora todas as agulhas, todos os alfinetes de cabelo que tinha, temos os anéis, temos as moedas, enfim, e temos as próprias casas, onde sentimos que eles viviam e as inscrições que eles nos deixaram. Isso é muito interessante de facto.

RTL – A cidade de Conimbriga está sendo estudada pela Universidade de Coimbra. O Sr. pode falar a respeito?

Encarnação – Pois, Conimbriga é sem dúvida nenhuma uma das cidades mais midiáticas, digamos assim, porque é conhecida desde há muito tempo e, portanto, ali também se fizeram além das escavações da década de 40 e 50, que puseram a descoberto lindíssimas casas, com lindíssimos mosaicos e jardins, casas fora das próprias muralhas. Depois, uma campanha luso-francesa de colaboração entre a faculdade de letras de Coimbra e, na altura, o Centre Pierre Paris da Universidade de Bordeaux III, que durante quase uma dezena de anos fizeram campanhas extensivas e intensivas, tendo posto a descoberto todo o seu conjunto monumental desde o fórum, aos vários templos, as grandes termas e etc. Ora, como esses resultados foram amplamente publicados e divulgados em congressos internacionais, não há dúvida de que Conimbriga é hoje uma das cidades mais conhecidas e mais visitadas.

Gostava já agora de dizer que Conimbriga não é Coimbra. Conimbriga fica situada a cerca de 15 km de Coimbra. Coimbra no tempo dos romanos chamava-se Aeminium, que é onde se situa hoje a Universidade. O que aconteceu foi que no século quarto, quando os suevos invadiram aquela zona, os habitantes de Conimbriga saíram da cidade, abandonaram-na, o próprio bispo abandonou a cidade e foi localizar-se junto ao rio Mondego, que é onde hoje é a cidade de Coimbra. E veio com ele o nome, era bispo de Conimbriga e transformou-se em bispo de Coimbra e, daí, que muitas vezes haja esta confusão entre Conimbriga e Coimbra. Não, Conimbriga é uma cidade romana, Coimbra, atual, está localizada sobre as ruínas de Aeminium, que é outra cidade romana, muito perto, portanto.

RTL – Há algum projeto de escavação na atual Coimbra?

Encarnação – Portanto, neste momento, a cidade de Aeminium, tem logicamente aquilo que nós temos que chamar uma arqueologia quase de salvamento, ou seja, não se fazem obras no centro histórico sem que o arqueólogo intervenha em primeiro lugar para dever. Designadamente temos um grande projeto no próprio museu Machado de Castro, que é o antigo Palácio Episcopal, que se situa sobre o antigo fórum romano. E o fórum romano, como a cidade, é em ruínas, se situa sobre um criptopórtico, ou seja, uma espécie de subterrâneo em grandes arcadas. Ora, aí, por exemplo, estão a fazer-se constantemente escavações. Mas, de um modo geral, os nossos antigos estudantes estão aí a acompanhar todas as obras da própria cidade. Relativamente, Conimbriga propriamente dita, neste momento, a cidade estará menos de 1/3 descoberta, mas também não nos interessa descobrir muito mais, na medida em que o que iríamos descobrir seriam casas e mais casas, mais toneladas quase de material e que não teriam com certeza outras informações se não confirmar as já existentes, por conseguinte, mantemos a descoberto a cidade, digamos assim, monumental, porque compreende que quanto mais coisas estiverem a céu aberto, maior é a dificuldade em nós as protegermos, dos liquens, das intempéries, da erosão, e tudo isso. Por conseguinte, não há necessidade de fazermos escavações, embora, na realidade, Conimbriga se mantenha ainda como uma hipótese de campo arqueológico para os estudantes de arqueologia poderem ir treinar e fazer alguma escavação arqueológica.

RTL – Qual o papel que tinha, dentro do Império Romano, o que é hoje Portugal?

Encarnação – Portugal não tinha um papel extraordinariamente importante. Porque o território que é atualmente Portugal fazia parte de uma província chamada a Lusitânia, a norte fazia parte o conventus Bracaraugustanus, fazia parte da Província da Hispania Citerior, enfim, não teve um papel, digamos assim, a nível político importante, nem sequer até a nível administrativo, de certo modo. Situava-se um pouco na periferia do Império, as pessoas gostavam muito de ir lá passear, isso nós sabemos, mas não temos ninguém grandemente importante. No entanto, é interessante verificarmos que não havia jogadores de futebol, como o Pelé ou como o Figo, que nós temos neste momento. Na Lusitânia existiu um dos maiores aurigas, um dos maiores corredores de cavalos do mundo romano, que tem em Roma uma das maiores inscrições encontradas, ele chama-se Caius Appuleius Diocles. Ele era um auriga de origem lusitana, aliais, os cavalos lusitanos tinham muita fama no Império Romano, e foi, tal como hoje os jogadores de futebol, que são requisitados e comprados ora por Botafogo, ora pelo Flamengo, ora por este, ora por aquele, também, assim, ocorreu com os brancos, os azuis, os verdes e os encarnados, portanto, as quatro grandes facções do circo romano foram, digamos assim, apoiadas e foram pedidas por este Caius Appuleius Diocles e a grande inscrição mostra as quantas vezes que ele ganhou essas corridas.

Enfim, provavelmente, o grande interesse da Lusitânia seria esse de uma zona de sossego, de calma, porque foi sempre uma província muito tranqüila. Depois de terem combatido contra Viriato e, designadamente, contra Sertório, e esta guerra com Sertório foi fundamentalmente lutas civis, no âmbito das lutas civis do final da república, a Lusitânia foi sempre uma província pacifica, onde era muito agradável viver com certeza.

RTL – O Sr. pode falar um pouco da resistência de Viriato e do mito em torno desta figura, pois chegam a atribuir-lhe ser o pai da nacionalidade portuguesa, mesmo o estado de Portugal ainda não tendo sido formado, só sendo este constituído muito posteriormente.

Encarnação – É o mito do herói fundador. Quer dizer, não há dúvida nenhuma que cada uma das nações tem que ir buscar as suas raízes, tem que ir buscar a alguém e, neste caso, foi Viriato. Viriato que teve uma importância muito grande como mito quando Portugal estava em riscos de perder a sua independência, quando Portugal necessitava de se afirmar. Designadamente, na altura do Renascimento é que nós estivemos em riscos, e acabamos depois por ser subjugados por Espanha, no tempo dos Felipes. Nessa altura, pois, Viriato foi como que endeusado, tanto Viriato como, sobretudo, Sertório. É curioso que, sendo Sertório alguém que não era português, não era lusitano, digamos assim, mas que foi dar força, foi dar instrução, de certo modo era alguém que motivava a população. E, portanto, Viriato era com certeza um dos chefes dos vários grupos que ofereceram necessariamente uma certa resistência, mas não tanta quanto na realidade isso foi proclamado. De facto, ele não foi exaltado só pelos escritores romanos, que precisavam de enaltecer as façanhas dos próprios generais, como também depois, em épocas de crise, e veja, por exemplo, o Estado Novo português, quando quis enaltecê-lo quando, de certo modo, nós estávamos a perder a identidade. É muito curioso verificar que neste momento há vários livros escritos sobre Viriato que estão a surgir, justamente porque estamos novamente em um período em que, face a uma globalização que pretende tornar tudo igual, temos a mesma moeda, não tarda falamos todos a mesma língua, podemos circular sem fronteiras, precisamos de arranjar a nossa própria identidade, e é muito curioso verificar que justamente agora há todo um conjunto de estudos sobre Viriato e, sobretudo, estudos sobre o mito de Viriato, como é que ele foi criado, é justamente porque neste momento estamos a procura de novos mitos.

RTL – O Sr. pode falar um pouco sobre a sua atividade na imprensa?

Encarnação – A minha atividade na imprensa situa-se naquilo que eu posso considerar uma extensão da Universidade diante da comunidade. Professor Universitário, no meu entender, não deve ser uma pessoa que se fecha na sua torre de marfim e que não dialoga senão com os seus parceiros. Eu sempre fui contrário a isso e, por outro lado, sempre procurei ter uma grande intervenção na história local, no desenvolvimento do patrimônio local, de mostrar as pessoas que de facto há estas raízes, há esta necessidade de criar comunidade. E, por isso, eu tenho neste momento um programa em uma rádio local que se chama “A falar é que a gente se entende” (rádio CSB, 105.4 fm), das 11 ao meio-dia, todos os domingos, é um programa que já tenho há quatorze anos, onde tenho levado pessoas dos mais variados níveis sociais, econômicos, políticos, culturais, e onde eu aprendo muitíssimo, porque há coisas que nós não temos a menor idéia que existe e isso me tem enriquecido muitíssimo. Imagine que um dos últimos programas, que me recordo em especial ter feito, foi sobre a dislexia e a pistorologia que é algo novo, que tem a ver com a nossa postura, a nossa maneira de colocar o corpo. Esse é o programa. Tenho também uma coluna no jornal local, já há 40 anos, e que se chama “notas e comentários”, e que eu faço uma pequenina crônica, que é uma crônica de uma coluna, uma página A4, sobre um acontecimento ou, digamos, uma crônica social em termos mais ou menos de chiste, de brincadeira, de ironia, eu procuro fazer alguma intervenção. E tenho depois uma página inteira em um outro jornal, que é um jornal que tem uma tiragem de 60.000 exemplares, que é distribuído porta a porta gratuitamente e que visa mostrar o patrimônio local, ou seja, é uma apresentação de locais específicos do concelho de Cascais, que tenham alguma coisa para dizer, ou é um museu ou é um pequeno recanto. Por exemplo, visitei recentemente a sacristia de uma igreja que tinha um conjunto de painéis de azulejos em que normalmente as pessoas não reparavam e que tem toda uma história de facto para contar. Isso tem sido muito interessante para mim, porque, de facto, tem feito as pessoas olharem com outros olhos para uma realidade pela qual passavam com freqüência e nem sequer se apercebiam dela, de tal maneira que já foi feito o livro “Cascais e os Seus Cantinhos”: o primeiro volume, que saiu em 2002, tem as crónicas de 1999 e 2000; há a ideia de continuar essa publicação; assim, um segundo volume teria as crónicas de 2001 e 2002.

RTL – Para finalizar, como o Sr. vê a internet como meio de divulgação da história?

Encarnação – Excelente. Eu próprio sou administrador de uma lista chamada “Archport”, que divulga arqueologia portuguesa e, portanto, onde veiculamos noticiários, informações, pedidos de informação, damos notícias do que vai aparecer de novo, acho que é extraordinariamente importante. Precisa, no entanto, de ser utilizada com muito cuidado porque, na realidade, há muita gente, digamos assim, como curiosa, que acaba por copiar daqui e de acolá e a fazer muitas vezes divulgação de textos que não tem nenhum valor. E tem um outro perigo, que é o de os nossos estudantes irem buscar as coisas à internet, sem nenhum espírito crítico, agarrar a elas, fazerem o “print”, como hoje se diz, fazê-las como trabalho próprio para apresentar aos professores. A internet serve para como veiculo de informação para, mas não pode de maneira nenhuma impedir o espírito crítico, o espírito de reflexão. Já temos demasiadas coisas que nos impedem de pensar. Portanto, se a internet for usada como deve ser, é realmente muito importante como transmissão de conhecimentos, como pedido de esclarecimento e, muitas vezes, estou com um determinado problema para resolver, há sempre um colega que diz, olha, vê isto, vê aquilo, eu tenho também, e etc. Neste aspecto é realmente muito importante e, também, de correspondência, a facilidade com que estamos em contacto com outras pessoas. Mas, tem o perigo de ficarmos dependentes, “internetdependentes” se não refletirmos, se não analisarmos, se não usarmos comedidamente.

Fotos da cidade romana de Conimbriga:

Imagens de Portugal: Conimbriga, vestígios de Roma.

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Imagens de Portugal: Conímbriga, vestígios de Roma

 

Primeiro plano, ruínas, possivelmente de lojas. Ao lado destes estabelecimentos, estrada. Ao fundo, aqueduto.

Primeiro plano, ruínas, possivelmente de lojas. Ao lado destes estabelecimentos, estrada. Ao fundo, aqueduto.

 

Detalhe do aqueduto augustano, que, ao longo de quase toda a sua extensão, mede aproximadamente 3,5 km. O aqueduto foi utilizado por Conimbriga por mais de quatro séculos, tendo sido destruído, acredita-se, pelos suevos.  Por baixo desta construção, estrada. A frente, ruína do alveus (banheira) frio.

Detalhe do aqueduto augustano, que, ao longo de quase toda a sua extensão, mede aproximadamente 3,5 km. O aqueduto foi utilizado por Conimbriga por mais de quatro séculos, tendo sido destruído, acredita-se, pelos suevos.  Por baixo desta construção, estrada. A frente, ruína do alveus (banheira) frio.

 

O sítio arqueológico de Conimbriga, localizado a 15 km de Coimbra, guarda os vestígios da presença romana no território que hoje é Portugal. As ruínas do que foi uma cidade do Império Romano conta com as muralhas de defesa da mesma, aqueduto e diversos mosaicos, além de termas, casas, estradas, fórum e anfiteatro.

 

Muralha que divide Conimbriga, construída para a defesa da mesma, em virtude dos ataques dos povos taxados de bárbaros pelos romanos.

Muralha que divide Conimbriga, construída para a defesa da mesma, em virtude dos ataques dos povos taxados de bárbaros pelos romanos.

Ruínas de Conímbriga. No primeiro plano, observa-se um de seus famosos mosaicos. Ao fundo, peristilo (pátio rodeado por um pórtico, constituindo o centro do espaço social de uma casa). 

 

No local das ruínas foram encontrados objetos que datam de até o século IX a.C., que são os indicadores mais antigos de ocupação da região. Atribuí-se que a origem do nome Conimbriga vem do sufixo céltico “briga”, significando cidadela, lugar fortificado. Já “conim” é um elemento mais antigo, aparentemente utilizado por indígenas pré-indo-europeus para designar o lugar, significando o radical eminência rochosa.

 

Ruínas de Conímbriga com a muralha ao fundo.

Colunas localizadas no sítio arqueológico de Conímbriga.

Colunas localizadas no sítio arqueológico de Conímbriga.

 

Em 139 a.C., Conimbriga, nas campanhas de Décimo Junio Bruto, cai sob o poder romano, sendo uma das principais cidades da província da Lusitânia. Até o século III d.C., a cidade cresce, recebendo o aqueduto, termas públicas, fórum, lojas, casas; é elevada a municipium (durante o reinado de Vespasiano, 69-79 d.C.); sendo também do terceiro século da era Cristã a construção das habitações atapetadas de mosaico. Entretanto, a crise do Império Romano afeta a cidade na segunda metade deste século, quando a Península Ibérica sofre as primeiras investidas bárbaras.

 

Detalhe de peristilo. Ao fundo, a direita, trecho da muralha de Conímbriga.

Um dos vários peristilos de Conímbriga.

 

No contexto destas invasões ocorridas a partir do século III, é erguida, na cidade, uma muralha, que excluí da proteção da fortificação a parte oriental. Entretanto, a construção não impede que os Suevos entrem em 465 na cidade e, em 468, destruam-na parcialmente, tendo muitos dos seus habitantes sido escravizados ou partido deste sítio.

 

Aspecto da sala das termas.

 

Ruína da sala das termas destinada a banhos quente e morno.

 

Por volta de 589 Conimbriga perde o título de sede episcopal para Aeminium, assim como o próprio nome, Conimbriga, que, por corrupção lingüística, transforma-se no vocábulo Coimbra. Os habitantes conimbrigenses restantes fundam, mais ao norte, Condeixa-a-Velha.

 

Detalhe do sistema de aquecimento da sala das termas.

Aspecto das ruínas de Conímbriga.

 

O interesse pelas ruínas começa no Renascimento, tendo, D. Manuel, em 1519, demonstrado o seu apreço pelos vestígios romanos. Na segunda metade do século XIX, as primeiras sondagens de vulto são feitas. No século XX, o interesse pelas ruínas não são abandonados e, em 1958, com a criação do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, contribui enormemente para o progresso dos estudos arqueológicos no país.

 

Peristilo com chão ornamentado com mosaicos. Pelo fato deste lago ser ornado de canteiros ajardinados e jogos de água, ele é único. Observa-se, ainda, que este peristilo encontra-se em um domus, casa particular ocupada por um único proprietário e sua família.

Mosaico com tema cotidiano: caçada ao veado. 

 

Os materiais achados durante as escavações estão expostos no Museu Monográfico, criado para tal função, a ajudar a reconstituir a vida nesta região, ocupada desde a Idade do Ferro até à época Cristã.

 

Para mais informações sobre a presença romana em Portugal:

Entrevista com o prof. Dr. José D'Encarnação (Universidade de Coimbra).

 

Contactos:

Conimbriga, Condeixa-a-Velha
3150-999 Condeixa-a-Nova
PORTUGAL

Tel: + 351 39 941 177

Fax: + 351 39 941 474

Museu Monográfico de Conimbriga

3150 Condeixa-a-Velha

Tel. 239 94 11 77

 

Bibliografia e sítios consultados:

ENCARNAÇÃO, José. Entrevista concedida em 23/09/2003. In: Revista Tema Livre, ed.07, 23 dezembro 2003. Disponível em: http://www.revistatemalivre.com

GARCIA, José Manuel. História de Portugal: Uma visão global. Lisboa: Editorial Presença, ano.

MATTOSO, José. História de Portugal . Lisboa: Estampa, v.1, 1993.

RUÍNAS DE CONIMBRIGA. Roteiros da Arqueologia Portuguesa. [s/l]: Instituto Português de Museus, v.2, 2002.

http://www.cm-condeixa.pt/cultura/m_conimb.htm
http://www.cm-condeixa.pt/turismo/conimbriga.htm
http://www.conimbriga.pt/index.html
http://www.uc.pt/iauc/historia/historia.html

 

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O Condado Portucalense e as relações de poder no Portugal de D. Henrique: séculos XI/XII

Por Fábio Ferreira

1. Introdução

Para entender a independência de Portugal face a Leão e Castela, é fundamental estudar e conhecer um pouco sobre D. Henrique, borgonhês, progenitor do primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, o conquistador. Mesmo o último sendo reconhecido como fundador da monarquia portuguesa e da dinastia de Borgonha, deve-se ressaltar que fora o pai quem criara uma situação favorável para o governo do filho, mesmo entre eles dois tendo havido o governo de Dona Teresa – sem desmerece-lo -, mãe de Afonso Henriques.

Este presente trabalho pretende tecer breves considerações sobre D. Henrique; o seu governo; as suas relações com Afonso VI, Imperador da Espanha; D. Raimundo, Conde da Galícia; e a dinâmica desenvolvida entre D. Henrique e os aspectos ligados a religiosidade, seja a própria instituição igreja, seja com valores da época que colocavam a cristandade em oposição aos muçulmanos dentro do continente europeu.

No próximo item, pode-se ler um breve resumo sobre os antecedentes a chegada desse borgonhês à Península Ibérica, citando o período Celta, Romano e Muçulmano, além do domínio dos bárbaros de origem germânica, a monarquia visigótica e a breve autonomia do Condado Portucalense, antes da chegada de D. Henrique à Portugal.

Em outro item, o trabalho pretende mostrar as razões que trouxeram Henrique e o seu primo Raimundo para a já citada península, e ainda, a ascensão deles, que de cavaleiros tornaram-se Condes e genros do Imperador Espanhol.

Em seguida, o trabalho apresenta as relações entre Henrique e a Igreja Católica e a religiosidade presente no mundo ocidental europeu: a reconquista, a ordem de Cluny, e as decisões do papado acerca dos conflitos entre os arcebispos de Braga e Toledo, e as relações com a política do Condado.

Prosseguindo, o trabalho apresenta a aliança entre Henrique e Raimundo, e o apoio da ordem de Cluny aos dois, devido a relação de parentesco deles com o monge de Cluny, Hugo, contra Afonso VI. Também pode-se ler a respeito de toda a contenda gerada acerca da herança desse Imperador e os propósitos expansionistas de D. Henrique, na direção dos vastos domínios de Afonso.

E por fim, no último item, encontra-se a conclusão do presente trabalho.

2. Antecedentes Históricos

Antes do Condado Portucalense1 ser senhoreado por Raimundo, e pelo seu primo2 Henrique, ambos oriundos da Borgonha, a região que compreende hoje o norte de Portugal já fora dominada pelos romanos, suevos, e árabes, e assim, nas próximas linhas trataremos brevemente das origens remotas dessa região do país.

Originalmente, os habitantes dessa parte da Península Ibérica são chamados de iberos, que mais tarde integraram-se aos celtas, que por sua vez, chegaram a região no primeiro milênio antes de Cristo, oriundos da Europa Central. A integração desses dois povos deu origem a um novo grupo populacional que veio a ser designado por Celtiberos.

Assim, as populações que habitavam o que é hoje Portugal viram no litoral do seu território o estabelecimento de algumas colônias gregas e fenícias. Mais tarde, os habitantes locais tiveram que defender as suas terras, no período compreendido entre as duas guerras púnicas, das invasões Cartaginesas.

Em relação a invasão romana em Portugal, ela começa quando os primeiros romanos desembarcaram na península em 219 a.C.3 devido a segunda guerra entre Roma e Cartago. Essa ocupação, longe de ser pacífica, teve resistência por parte dos habitantes locais, sendo Viriato o grande opositor aos oriundos da península itálica. Ele é considerado por muitos historiadores portugueses como o primeiro herói nacional. Esse personagem derrotara tropas romanas, entretanto, foi assassinado pelos invasores, e os lusitanos4 submeteram-se aos romanos no ano de 139 a.C.5. Porém, esses fatos não significam que a resistência findara-se com a morte de Viriato.

Devido a esse controle romano na península Ibérica, aconteceram inúmeras mudanças na região, seja a nível econômico, religioso e político. Sobre essa dominação na área do Porto, pode-se dizer que na foz do Douro houvera uma aglomeração romana e o local da atual Sé da já citada cidade, fora o centro da atividade desses invasores e o seu ponto estratégico mais importante.

A decadência do domínio romano na região só vem a ocorrer depois de cinco séculos de dominação, á época das invasões dos povos denominados bárbaros, como os Suevos, Alanos e Vândalos6, sendo que o primeiro grupo desses invasores do século V chegaram a estabelecer um reinado em uma parte da península – mesmo que brevemente – com a capital em Braga.

Em seguida, é a vez dos Visigodos7, também denominados bárbaros, embora com influências romanas, invadirem a Península, e a expulsar os suevos e as tropas romanas dessa parte da Europa. A monarquia visigótica vem a ser encerrada com a invasão muçulmana, que mesmo tendo desembarcado ao sul dos atuais Portugal e Espanha, no ano de 711, chegaram a região do rio Douro. Entretanto, a dominação dos seguidores de Maomé no norte do país é efêmera, e Braga e Portucale renascem.

Por volta do século X, o Condado Portucalense possuía a sua própria dinastia, entretanto ela é destronada por Sancho III o Grande, da casa Navarra-Castelhana, tendo como conseqüência a perda da autonomia dessa região a oeste da península. A respeito dos princípios do Condado e sobre essa dinastia, Saraiva (1993, p.58) observa que:

“Desde os fins do século IX começaram a aparecer referências a um condado Portucalense, de fronteiras muito imprecisas, mas que abrangia terras no Minho e ao sul do Douro. A designação provinha de a principal povoação ser Portucale, situada próximo da foz do Douro, que foi ‘restaurada’ e povoada nos meados do século IX pelo conde Vimara Peres. (…) essa foi a origem da povoação que serviu de capital ao condado e que teve uma importante função política nos primeiros tempos da vida nacional. O filho, o neto, o trineto de Mumadona [condessa que descendia de Vimara Peres] governaram Portucale sucessivamente. Gozavam de uma semi-independência (…)”

Após determinado tempo nas mãos dos castelhanos, o Condado muda de mãos. A objetivar a defesa da parte ocidental ibérica das invasões muçulmanas, e, segundo Saraiva (ibid.), conter os objetivos autonomistas nessa parte de seus domínios, Afonso VI de Leão (1065-1109) e Castela (1072-1109) solicita ajuda de cruzados franceses, dentre os quais encontram-se Raimundo e Henrique, que mais tarde desposam as filhas do Imperador.

No século XI, mais precisamente em 1093, Raimundo, que viera de além Pirineus para a Hispânia, torna-se o senhor dos condados de Portugal e Coimbra, além da Galícia, sendo que nos dois primeiros ele foi senhor como suserano, tendo como vassalo o seu primo e cunhado Henrique, também vindo de Borgonha.

Como já foi dito, a escolha de membros da família real para governar tal parte da Península em detrimento das famílias locais, visava conter os fomentos autonomistas, pois, teoricamente, os maridos de suas filhas seriam mais leais ao Imperador, sogro desses novos governantes. Entretanto, a história mostra que não foi bem assim.

3. Raimundo e Henrique: De Cavaleiros à Condes

Os dois borgonheses chegaram a Península Ibérica no contexto da reconquista cristã, que visava a expulsão dos muçulmanos de várias partes da Europa, como a Península Ibérica e a Sicília, por exemplo, onde os islâmicos estavam instalados; e do surto demográfico que acontecia principalmente em França, onde havia a facilidade de recrutar-se mercenários, e também, devido a esse aumento populacional, os filhos segundos enfrentavam problemas, como o de não possuir direitos à terras da família como herança. Caso viessem a colocar as mãos em parte da herança, provavelmente nunca seria a melhor parte: a mais rendosa.

Não é conhecida uma data exata da chegada de Raimundo à Península, entretanto, existem datas que podem ter sido o de sua ida para essa região da Europa, que são: os fins de 1079 ou princípios de 1080 ou ainda 1086, ou mais tarde como afirmam alguns historiadores8.

Mas o que vale observar é que o borgonhês chegou á época da reconquista, – ele era um cavaleiro, e chegou a essa parte da Europa para lutar contra os seguidores do Islão – e em um período de excesso populacional em França – o que permite-nos perceber as razões que o levaram até lá, sendo que a intervenção na Península era um meio desses filhos segundos obterem vantagens, sendo que no caso de Raimundo ele conseguiu aquilo que objetivava: ter um senhorio próprio.

Raimundo tem o seu casamento com a única filha legitima do Imperador Afonso VI, Urraca, negociado no ano de 10879 , sendo ela a única filha legitima e herdeira do soberano espanhol. Vale citar que era comum a união matrimonial entre príncipes franceses e ibéricos, como o que aconteceu com Raimundo e Urraca, por exemplo, e que já ocorriam desde antes da união dos dois, inclusive tendo o sogro do borgonhês e outros membros da família deste aderido a matrimônios com franceses:

“Assim, Afonso VI de Leão e Castela matrimoniou-se, em segundas núpcias (1074), com Inês (Agnès), filha de Guilherme VI, conde de Poitiers e, em terceiras núpcias (1079), com Constança, filha de Roberto I, duque de Borgonha. Elvira, filha bastarda do mesmo Afonso, consorciou-se (1094) com Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse. (…) A níveis inferiores da hierarquia feudal, outros exemplos se poderiam aduzir. O casamento francês, sobretudo no Sul de França, era o casamento preferido (…)” (MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III, p.14)

O casamento de Raimundo com a filha de Afonso VI, segundo Oliveira Marquês, deu-se no ano de 1090 ou 1091. Foi nesse período (1090 a 1094) que o borgonhês, junto de seu primo Henrique – que segundo Herculano (1901) provavelmente chegara a península junto do então futuro marido de Urraca -, conseguiram vitórias até o Tejo, o que dá prestígio a eles, e ainda, à Raimundo, o Condado da Galícia.

O feudo que foi concedido a Raimundo compreendia a região ao norte do Minho, e a região ao sul deste rio10, que compreendia os condados Portucalense e de Coimbra. Raimundo passou ao controle do seu primo Henrique esses dois últimos domínios, através das relações de vassalagem, e , segundo Marques (Ibid.), no ano de 1095 ou 1096, ganha autonomia como “feudo lígio”.11

Sobre o ano da ascensão de Henrique a Conde, Ameal (1942) narra que: “Em 1095, num documento conhecido, já D. Henrique usa o título de ‘Senhor de Coimbra’. Dois anos mais tarde, este, mais amplo e expressivo: comes portucalensis – ‘Conde portucalense’.”

Henrique, assim como Raimundo, desposara uma filha de Afonso VI, Tarasia ou Tareja (Teresa), sendo que esta era uma filha bastarda do soberano de Leão e Castela com uma nobre. Ao observar tal união, podemos perceber que os laços entre Henrique e Raimundo são reforçados, pois além de, segundo Herculano (1901), os dois serem primos co-irmãos, com a união matrimonial do primeiro, eles tornam-se cunhados.

O início do governo de Henrique nas terras que ele recebera na Península Ibérica, devido também ao seu destaque no campo militar, ainda citando Herculano, data de 1094 ou 1095. Entretanto, Henrique governou o Condado com períodos de ausência, por inúmeras razões, como a de acompanhar pessoalmente o que estava a ocorrer em outras terras que exercia o domínio e que ficavam fora da região do Condado, como por exemplo nas atuais províncias espanholas de Zamora e Orense; as idas a corte, também localizada na atual Espanha, mais precisamente em Toledo; e o envolvimento na guerra civil depois da morte de seu sogro, Afonso VI. Sobre tais ausências, Herculano (ibid., p.198) cita que:

“Os grandes senhores, embora encarregados de importantes governos, quando as ocupações militares não tornavam aí necessária a sua presença. freqüentavam a corte do rei, e os próprios bispos abandonavam por ela as suas dioceses. O conde de Portugal, tendo feito no inverno de 1097 a 1098 uma viagem à Galícia para visitar o célebre templo de Santiago, achava-se em 1100 e ainda em 1101 na corte de Afonso VI.”

Porém, mesmo tendo tal papel na corte e sendo bem clara a sua posição de vassalo em relação a Castela, D. Henrique, sempre que possível, tentava desfazer-se desses laços. A sua autoridade era reforçada por razões como: a freqüente guerra com os muçulmanos; os poderes enormes que desfrutava; e o isolamento do seu Condado e a dificuldade de comunicações. Devido a esses fatores, o Conde via-se em uma posição em que poderia gozar de amplos poderes, e assim, consequentemente, reforçava a sua autoridade.

4. As Relações Clero e Religiosidade X Dom Henrique

Em relação ao elemento muçulmano, Henrique era adepto das idéias da reconquista cristã, presentes em outras partes da Europa, que levou inúmeros cristãos a ingressarem nas cruzadas, que, segundo Herculano (ibid.), a primeira cruzada fora composta de homens e mulheres, com indivíduos de todas as condições, e possuidora de cem mil homens. Assim, Henrique também lutou contra os seguidores de Maomé, entretanto na própria península12 , seja nas terras que governava, seja em outras partes da Hispânia.

“O conde D. Henrique não deixou, evidentemente, de fazer guerra aos Almorávidas, razão ou pretexto principal que o trouxera à Hispânia. Era (…) um dos maiores cabos de guerra do seu tempo. Até 1103 (…) tomou parte em diversas campanhas, dentro e fora das fronteiras do seu Condado. Em setembro de 1100, por exemplo, ajudou D. Raimundo (…) Em 1103 terá defendido o que subsistia das posições cristãs na linha do Tejo (…)”(MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III.p.19)

E sobre tal postura de confronto com o “infiel”, Herculano (1901, p.198), cita que:

“Os chefes sarracenos (…) tinham avançado com um corpo de tropas para Castela e, segundo todas as probabilidades, o conde [Henrique] foi enviado a repeli-los. Atravessando, pois, as serras chamadas Montes de Toledo, Henrique encontrou os inimigos nas imediações de Ciudad-real (…) Travaram peleja. Foi esta (…) disputada e sanguinolenta.”

No que diz respeito ao catolicismo, Henrique de Borgonha possuía laços de parentesco com Hugo de Cluny13, e assim, levou aos seus domínios os clunienses franceses. Dom Henrique também ocupou-se de questões eclesiásticas, e desde que ele tornou-se senhor de terras portuguesas, os membros do clero de Braga o apoiaram.

Nas suas relações com a Igreja, o borgonhês atuava sempre de maneira que beneficiasse a autonomia portuguesa, como nos atritos entre os arcebispos de Braga e Toledo, anteriores a chegada de Henrique a posição de senhor do Condado Portucalense. O borgonhês ficou ao lado de seus aliados, os bracarenses, que nessa relação conflituosa tinham interesses que coincidiam com os de Dom Henrique, que visava criar uma província metropolitana portuguesa, que fosse a mesma do território do seu Condado, logo ele e Braga eram possuidores de interesses semelhantes.

Vale observar que os atritos entre Braga e Toledo, anteriores a formação do Estado português, vão estar, mais tarde, sempre relacionados as aspirações de Portugal torna-se independente.

Sobre tais conflitos entre as metrópoles portuguesas e espanholas, Erdmann (1925, p.11) cita que:

“Bernardo de Toledo não perdeu tempo a impor (…) a sua nova autoridade á província da Galiza e principalmente à antiga metrópole de Braga. Em 28 de Agosto de 1089 encontramo-lo em Braga (…) sagrando solenemente a catedral. Não admira que o bispo Pedro de Braga, que tinha consciência dos antigos direitos da sua Sé, não visse com bons olhos a supremacia do toledano.”

Pedro, esforça-se para recuperar os direitos que Braga possuía, e após várias manobras políticas fracassa, é deposto, e o seu fim é em um convento, tendo essa Sé ficado sem bispo por alguns anos.

Somente anos mais tarde, em 1099 ou 1100 que Braga obtém sentença favorável a recuperação dos seus direitos através do Papa Pascoal II, reconhecida no concílio de Palência (1100).

Entretanto, tal questão não foi resolvida neste momento, tendo perdurado por mais tempo os atritos entre a metrópole portuguesa e a espanhola, pois diversas questões não foram resolvidas, conforme cita Erdmann (ibid., p.15): “Não se resolvia ainda quais haviam de ser as dioceses sufragâneas nem se concedia, ao que parece, o próprio privilégio metropolitano. No caso de Braga, a restauração da metrópole fez-se também em duas etapas.”

Ainda segundo Erdmann, o papel de Dom Henrique nesses conflitos era posicionar-se ao lado de Braga, tendo, provavelmente, tido contato com o Papa Pascoal II pessoalmente, e assim conseguido “decisão definitiva sobre a questão bracarense, porque só então o papa reconheceu Braga definitivamente como metrópole da Galiza (…) São mencionados agora os bispados sufragâneos, decidindo o papa em sentido muito favorável para Braga.”

A província de Braga também recebe o bispado de Coimbra, com as duas dioceses, Viseu e Lamego. No que diz respeito a essas três dioceses terem ido parar nas mãos de Braga, pode-se dizer que causou as mais intensas lutas no decorrer do século XII.

As decisões de Pascoal beneficiam Portugal, pois receber Coimbra era de fundamental importância, devido as perspectivas do crescimento das terras cristãs, que a essa altura colocavam a localidade na área fronteiriça, perto dos muçulmanos. Tal decisão também contribuiu para a formação de uma igreja portuguesa, e Braga tinha reconhecido o seu direito sobre Portugal e Galícia.

5. A herança de Afonso VI e os propósitos expansionistas de Dom Henrique

A herança de Afonso VI, teoricamente, não era para causar preocupação alguma, já que ele tinha como única filha legítima Dona Urraca, esposa de Dom Raimundo, que governava a Galícia.

Entretanto, nos últimos anos de vida, o Imperador espanhol começou a demonstrar o seu desejo em ter como sucessor o seu único filho homem, que era bastardo, e chamava-se Sancho. Esse filho era proveniente da sua união com Zaida, filha do rei mouro de Sevilha, Ibn Abbad.

Afonso VI demonstrara o seu intento de tornar Sancho seu herdeiro já na infância do seu filho, através de várias atitudes, conforme narra-nos Herculano (1901, p.203): “Afonso começara a manifestar estas intenções ainda na meninice de Sancho, fazendo-o confirmar os diplomas juntamente com D. Urraca e dando-lhe desde logo o principado de Toledo.”

Em um primeiro momento, o conde Raimundo acreditava que viria a ser o herdeiro de seu sogro, pelo fato de ser o marido da única filha legítima do imperador espanhol, além dela ser a primogênita de Afonso VI. Dentro da monarquia leonesa, era Raimundo quem controlava os domínios mais importantes, inclusive tendo outros condes sujeitados a ele. Por essas razões, ele tinha expectativas em receber as posses do pai de Dona Urraca, no entanto, as demonstrações do seu sogro em beneficiar o infante Sancho levaram-no a unir-se com D. Henrique em uma aliança, chamada Pacto Sucessório.

Segundo Marques (p.20), esse pacto foi firmado entre Maio e Setembro de 1105, já para Ameal (1942, p.48), a aliança data de 1094 ou 1107, entretanto, vale destacar que o contrato dos dois primos teve como mediador um membro do clero, Dalmácio Geret, da ordem de Cluny, sendo que meses antes tal ordem recebera uma doação vultuosa do dirigente do Condado Portucalense. Tal doação feita pelo borgonhês visava aproximar-se e tornar-se simpático ao clero e a nobreza de Leão, já que o doador de tão ricos agrados tinha pretensões expansionistas em direção a Espanha.

Também deve-se ressaltar que D. Raimundo e D. Henrique eram parentes de Hugo de Cluny, conhecido como o abade dos abades, e que a influencia e o poder desse monge eram enormes, seja sobre reis, seja sobre papas. Sobre a influência que Hugo exercia em várias partes do continente europeu, Herculano (1901, p.204) afirma que:

“Da solidão de um mosteiro situado na Borgonha um velho monge influía então nos negócios mais graves da Europa. Cluny era esse mosteiro; Hugo esse monge. (…) Ele era homem em cujo seio Gregório VII, pontífice (…) ia depositar as próprias as próprias mágoas e esperanças. Os reis e senhores solicitavam-lhe a amizade e buscavam-no para juiz das suas contendas. De todos os príncipes que mostravam maior veneração (…) nenhum, talvez, igualou-se [à] Afonso VI (…)”

Mesmo existindo tal relação com o espanhol – tendo inclusive recebido deste monarca o título de “pae”14 – provavelmente Hugo queria que os vastos domínios de Afonso VI fossem parar nas mãos dos dois condes borgonheses.

O desejo do monge deve-se aos laços de parentesco que haviam entre ele, Raimundo e Henrique; pela origem dos seus dois primos serem a Borgonha; e ainda, pelo fato dos genros do imperador espanhol serem afiliados ao mosteiro de Cluny. Sobre os interesses de Hugo, Ameal (1942, p.45) cita que: ” Porque não esperará o Abade de Cluny, uma vez falecido o Imperador, (…) fragmentação da herança (…) em proveito dos seus dois parentes Henrique e Raimundo (…) ?”

Retornando ao já citado pacto, nas linhas desse contrato, D. Henrique comprometia-se a apoiar as pretensões de seu primo e cunhado ao trono que à essa época ainda pertencia a Afonso VI, além de ter somente o seu parente como seu senhor. Em troca, o marido de D. Teresa ganharia a cidade de Toledo e o seu distrito, e caso não fosse possível, Henrique teria toda a Galícia.15 E ainda, com tal aliança, os dois primos também comprometiam-se em defender um ao outro.

Caso tal pacto viesse a ser executado, D. Henrique ficaria com uma grande parte dos domínios de seu sogro, entretanto, em uma área de maior risco de sofrer ataques, ou até mesmo de maior dificuldade de manter-se no domínio, já que eram terras situadas na fronteira entre os territórios cristãos e muçulmanos, logo com maior possibilidade de conflitos.

Evidentemente, mesmo com tais riscos, se o conde de Portugal fez tal acordo, é porque, provavelmente, via chances de manter seu domínio em tais terras. D. Henrique tinha tais perspectivas até porque ficaria com parte dos tesouros de Afonso VI, o que poderia ajudá-lo a conquistar novas terras, à época sob domínio Islão. O conde também poderia dilatar as suas invasões pelo Gharb e pela Andalusia.16

Entretanto, tal aliança veio a tornar-se sem propósito devido a três vidas ceifadas pela morte e possuidoras de papéis fundamentais em tal jogo de poder: A de Raimundo, no outono de 110717; Sancho, assassinado pelos Almorávidas em Maio de 110818; e por fim, em Julho de 1109 foi a vez de Afonso VI falecer19.

Devido a tal ironia do destino, as pretensões de Dom Henrique sobre Toledo findam-se, porém, o conde não desiste dos seus propósitos que visavam a independência portuguesa, nem do engrandecimento de suas terras.

Antes de falecer, Afonso VI declarou Urraca, sua filha e viúva de D. Raimundo, como herdeira do trono. Segundo Herculano, tal atitude deixou D. Henrique furioso e originou um projeto audacioso, em que avançaria sobre toda a monarquia de Leão e Castela.

Assim, em 111020 , D. Henrique aliou-se com o rei de Aragão, Afonso I, contra Urraca. Os dois homens visavam os territórios sob o domínio da filha do já falecido Afonso VI, e sobre tais pretensões do conde de Portugal e do rei aragonês, Herculano (1901, p.212) narra que:

“Chegado aos estados de Afonso I, Henrique achou aí o rei aragonês. Temendo que este príncipe, que se julgava com direito à coroa leonesa, sabendo os seus intentos (…) procurou e alcançou aliar-se com ele. Foi a condição da liga marcharem as suas forças contra D. Urraca, procurando unidos conquistar as terras de Leão e Castela e reparti-las depois igualmente entre ambos.”

No entanto, em um segundo momento (1110 – 1112)21, D. Henrique mudou de lado, a aliar-se a D. Urraca, contra Afonso I. Tais alianças, fizeram com que o conde tenha conseguido a concessão do feudo de Zamora.

Os objetivos expansionistas de D. Henrique terminam no dia 24 de Abril de 111222, dia de sua morte, em Astorga, havendo historiadores que afirmam que ele faleceu sendo um septuagenário, outros, afirmam que ele estava entre os cinqüenta e os sessenta anos de idade, conforme narra Herculano (1901, p.231):

“No comum sentir dos nossos historiadores o conde borgonhês havia chegado aos setenta e sete anos de idade quando faleceu; mas esta opinião envolve graves dificuldades. A atividade militar do conde nos últimos tempos da sua vida (…) nos persuadem a supor-lhe quando morreu a idade de cincoenta a sessenta anos. O seu cadáver foi transportado (…) para Braga, em cuja catedral jazem ainda hoje os restos daquele que, até certo ponto, se pode chamar o fundador da nacionalidade portuguesa.”

Assim, devido a pouca de idade de D. Afonso Henriques, que veio a ter papel fundamental no que diz respeito a independência de Portugal, quem substituiu D. Henrique foi a sua esposa, Dona Teresa23.

Inúmeras vezes ela esteve contra a sua irmã, a viúva de D. Raimundo, Dona Urraca, entretanto, em outros momentos, aproximou-se dos galegos. Nas vezes em que esteve a opor-se a sua irmã, estava a continuar a política separatista de seu finado marido, que veio a concretizar-se com o filho do casal, D. Afonso Henriques, em 117924.

6. Conclusão

Assim sendo, a ida de Raimundo e Henrique para a Península Ibérica foi algo extremamente lucrativo para os dois, pois se houvessem ficado em seu local de origem, a Borgonha, provavelmente nunca teriam tornado-se senhores de domínios como a Galícia e Portucale, respectivamente.

Vale observar que para tornarem-se Condes, título que nunca teriam na sua terra natal, em um primeiro momento, aceitaram as relações de vassalagem e a autoridade de Afonso VI. Entretanto, após estarem estabilizados no poder de seus condados, a ânsia de poder leva os dois primos a ignorarem os laços de vassalagem, e assim, colocam-se contra o Imperador e sogro, Afonso VI, através do Pacto Sucessório.

Igualmente em nome do poder e da ambição, outro borgonhês alia-se aos dois condes: o monge Hugo de Cluny. Acredita-se que devido as boas relações entre esse membro do clero e Afonso VI, Raimundo e Henrique foram aceitos pelo Imperador espanhol.

Também acredita-se que o pai de Urraca e Teresa dera os Condados da Galícia e Portucale para os dois genros por acreditar que eles não fomentariam, nem beneficiariam-se, de desejos autonomistas que haviam nessa região oeste da Península Ibérica, já que eles pertenciam, devido ao casamento, à família real. Ledo engano. Basta citar como exemplo o pacto sucessório.

Afonso VI pode até ter feito uma leitura equivocada dos maridos das suas filhas, já que mais tarde eles dois tornaram-se opositores do Imperador, porém, se o pai de Urraca e Teresa aceitou os dois borgonheses na Península e depois deu-lhes os condados, não foi por pura bondade, óbvio, afinal em jogos políticos o que comanda são os interesses pessoais.

Então, se Afonso VI fora tão generoso com os genros é porque acreditava que eles defenderiam os seus interesses na região oeste da Península, local ameaçado pelos ataques dos seguidores do profeta, condados com sonhos autonomistas, região de difícil acesso, e ainda, pelo talento dos borgonheses como cavaleiros.

Além disso, é fundamental entender o papel da Igreja e da cristandade na formação de Portugal, quase sempre presentes nas manobras políticas do Conde D. Henrique. Seja ao relacionar-se com a ordem de Cluny, a fazer doações demasiado caridosas ou ainda pelo seu parentesco com Hugo, o abade dos abades; seja através dos conflitos existentes entre Braga e Toledo, que por volta do ano 1100 a localidade portuguesa já obtém vitória, mesmo tendo ocorrido no decorrer do século XII uma série de conflitos; seja na luta contra o “infiel”, que levou os cristãos a expandirem-se para a parte sul de Portugal.

Entretanto, mesmo não tendo conseguido a tão almejada autonomia, D. Henrique pode ser considerado um homem que objetivava a autonomia do seu Condado face a Leão e Castela, pois inúmeras de suas atitudes tinham esse propósito. Sobre esse aspecto da figura do Conde de Portugal, Ameal (1942, p.49) cita que:

“(…) D. Henrique [não] renuncia ao que pode chamar-se o programa mínimo: a autonomia, sob a sua égide, do Condado portucalense. Talvez se deva até marcar, como início da nossa independência, esse dia em que fecha os olhos o grande batalhador [Afonso VI] que nas suas mãos segurou, quase por quarenta anos, o Império das Espanhas.

A maneira como D. Henrique se comporta daí por diante quase nos levaria a afirmar que, desde então, (embora ainda venha a sofrer vicissitudes contrárias), se começa a sentir que Portugal vai nascer.”

7. Notas

1 – John dos Passos define Portucale como o velho porto romano, localizado na foz do Douro, e observa que a denominação Província Portucalense começa a surgir no ano de 841 em documentos. A partir daí, o nome Portugal surge para designar as terras entre o Douro e o Minho que a cristandade tomava dos Mouros.

2 – Henrique e Raimundo não eram primos, ao contrário do que afirma a historiografia tradicional. Eles seriam membros de famílias diferentes unidas por um casamento, o do irmão mais velho de Henrique, o duque Eudes I, com Sibila, irmã de Raimundo. Entretanto, não cabe ao presente trabalho aprofundar-se em tal questão, logo seguindo aquilo que é estabelecido pela historiografia tradicional ( MATTOSO, José «1096-1350» In História de Portugal, dir. José Mattoso, vol. 2, A Monarquia Feudal (1096-1480), coord. José Mattoso, s. l., Círculo de Leitores, 1993, p.24, disponível em )

3 – Disponível em: http://www.portugal-online.pt/por/nacionalidade.html

4 – Os lusitanos, que habitavam entre os rios Douro e Tejo, são um ramo dos Celtiberos.

5 – Disponível em: http://www.terravista.pt/PortoSanto/2138/prologo.htm

6 – Sobre a origem desses três povos vale dizer que os Alanos eram oriundos da região do Cáucaso, os Vândalos eram germanos de raiz escandinava e os Suevos também eram germânicos mas talvez aparentados com os anglos e saxões.

7 – Também possuidores de origens germânicas.

8 – HERCULANO, A. História de Portugal: desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III. Tomo I. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901, p.192.

9 – MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III., p.16

10 – Vale citar que até hoje o Minho divide terras distintas, pois é esse rio que separa o norte de Portugal da região espanhola da Galícia.

11 – MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III..,p.17.

12 – Devido a peculiaridades existentes na Hispânia, há proibição papal dos habitantes da península seguirem nas Cruzadas.

13 – Cluny era uma ordem religiosa francesa. Sobre tal ordem, Passos afirma que: “A abadia de Cluny foi fundada na região montanhosa entre o Sona e o Líger, pelo pio Conde de Auvergne, em 910. No fim do século tinha-se tornado o ponto focal de um movimento de reforma da Igreja cristã. Os clunienses acreditavam nas regras monásticas rigorosas, na vida ascética para o clero e na execução meticulosa da liturgia. Encorajavam as peregrinações. Incitavam os cavaleiros e os principelhos feudais a combaterem os infiéis, em vez de lutarem entre si. A renascença religiosa, que irradiou de Cluny, pôs em movimento os violentos entusiasmos que iniciaram as cruzadas. Nos séculos X e XI, Cluny ofuscou Roma como centro religioso da Europa Ocidental. Na Península Hispânica, como na Itália e em França, foram influências de Cluny que estimularam os grandes progressos da arquitectura românica.”

14 – HERCULANO, A. História de Portugal: desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III. Tomo I. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901, p.204.

15 – Provavelmente tal clausura foi incluída pela crença do conde Henrique na dificuldade em dominar Toledo, a capital da monarquia, ou pela ameaça sarracena que tal cidade sofria.

16 – HERCULANO, A. História de Portugal: desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III. Tomo I. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901, p.206.

17 – ibid., p.207

18 – MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III, p.20.

19 – ibid.

20 – ibid.

21 – ibid.

22 – ibid.

23 – D. Henrique sempre teve em grande apreço a opinião da mulher; inteligente, ambiciosa e de grande tenacidade, foi uma valiosa auxiliar na obra que ele tinha em mente realizar. Logo, pode-se acreditar que ela estava preparada para governar o Condado e já sabia das manobras político-administrativas. (FERREIRA, Maria Emília Cordeiro «Teresa, Condessa D.» In Dicionário de História de Portugal, dir. Joel Serrão, vol. IV, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1963 , p.157, disponível em: http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/9070/fronteira.html)

24 – Ano em que a Igreja reconhece a soberania portuguesa, conforme narra Saraiva (1993, p.60): “(…) a bula papal de 1179, [de quando data o] reconhecimento da nova monarquia pela Santa Sé.” Mesmo no ano de 1140, D. Afonso Henriques ter assinado o primeiro documento como rei de Portugal, e, em 1143, D. Afonso VII – sucessor de Afonso VI, reconhecer Portugal como país independente e D. Afonso Henriques como rei de Portugal (Tratado de Zamora.) a Igreja só vem a reconhecer anos mais tarde. Informação disponível em: http://www.geocities.com/Athens/Sparta/3482/reino.htm

8. Bibliografia e Sítios Consultados:

AMEAL, João. História de Portugal. Porto: Livraria Tavares Martins, 1942.

ERDMANN, Carl. O Papado e Portugal no Primeiro Século da História Portuguesa. Coimbra: Publicações do Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1935.

HERCULANO, A. História de Portugal: desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III. Tomo I. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901.

MARQUES, A.H. de Oliveira. A Constituição de um Condado In: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): do Condado Portucalense à crise do século XIV. Volume III.

PASSOS, John dos. Portugal: três séculos de expansão e descobrimentos. Venda Nova: Editorial Ibis.

SARAIVA, José Hermano. História de Portugal. Lisboa: Publicações Alfa, 1993.

http://www.cm-porto.pt/cidade/historia_01.asp

http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/9070/historia_medieval.html

http://www.ip.pt/~ip200650/

http://www.portugal-online.pt/por/nacionalidade.html

http://www.terravista.pt/PortoSanto/2138/afonsoIt.htm

http://www.terravista.pt/PortoSanto/2138/index.htm

http://www.terravista.pt/PortoSanto/2138/prologo.htm