Arquivo da tag: Niterói

Destruição do patrimônio histórico: um problema que acontece em cada cidade do país

Niterói, 22 de novembro de 2010

Da Redação

 

O Clube IPC na década de 1950. Foto extraída de: http://fotolog.terra.com.br/lembrancas_de_niteroi:93

O Clube IPC na década de 1950. Foto extraída de: http://fotolog.terra.com.br/lembrancas_de_niteroi:93

 

 

Hoje, 22 de novembro, é feriado em Niterói, cidade onde a Revista Tema Livre foi criada em 2002 e tem sua sede. Esta data é entendida como a da fundação deste município do Grande Rio. Poder-se-ia, como os demais veículos de comunicação fazem repetitivamente todo ano, contar a história da cidade ou mostrar suas inúmeras maravilhas. Belezas da antiga capital fluminense – não todas – já foram mostradas nas primeiras edições de Tema Livre, no início da década de 2000 (Para os que desejarem rever, seguem os links: www.revistatemalivre.com/crep1p.html e www.revistatemalivre.com/crep2p.html.)

 

Foto da Praia de Icaraí e do bairro de mesmo nome em 1951. Extraído de: www.historiadocinemabrasileiro.com.br/cinema-icarai-niteroi-rj/

Foto da Praia de Icaraí e do bairro de mesmo nome em 1951. Extraído de: www.historiadocinemabrasileiro.com.br/cinema-icarai-niteroi-rj/

 

Mais do que as repetidas homenagens, a cidade merece que se chame a atenção para a destruição do seu patrimônio histórico, problema enfrentado por outras cidades do país, adversidade que empobrece a história e o turismo dos municípios, bem como priva as gerações futuras de conhecerem o patrimônio material da cidade onde virão a viver. Tudo em nome da especulação imobiliária, que acaba por trazer uma série de problemas, promovendo o caos urbano.

 

Foto de Icaraí, bairro mais populoso de Niterói e com maior densidade demográfica da cidade, tem área de aproximadamente 2km². Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Icaraí

Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Icaraí

.

 

Neste 437º aniversário, em que concomitantemente às celebrações da cidade de quase 500.000 habitantes, de área de 129,375km², e com o melhor IDH do estado e terceiro do Brasil, é relevante lembrar, dentre os muitos já destruídos, de dois marcos históricos e arquitetônicos da cidade que sofrem com os tempos de grande especulação imobiliária nas grandes áreas urbanas brasileiras: O impasse do cinema Icaraí, na praia de mesmo nome, logo situado em um dos pontos mais valorizados da cidade, e que está fechado desde 2005, a deteriorar-se, sendo que especulou-se, inclusive, sua destruição para a construção de um espigão.

 

Foto do Cinema Icaraí em 1946. Extraído de: www.historiadocinemabrasileiro.com.br/cinema-icarai-niteroi-rj/

Foto do Cinema Icaraí em 1946. Extraído de: www.historiadocinemabrasileiro.com.br/cinema-icarai-niteroi-rj/

 

O imóvel foi “destombado” parcialmente em 2006 pela Câmara dos Vereadores, mesmo não havendo unanimidade na questão. Em suma: Planejava-se manter a fachada e construía-se um prédio de 14 andares. Ignorava-se, então, que o cinema era um dos últimos em estilo Art Déco em Niterói. Outro prédio é o da Reitoria da UFF, antigo Cassino Icaraí, a uma quadra do antigo cinema. Porém, pela pressão popular, o cinema não foi destruído, mas ainda seria propriedade de uma construtora que espera o desfecho da questão.

 

Foto do já inexistente Clube IPC, marco da arquitetura moderna em Niterói. Acervo Tema Livre.

Foto do já inexistente Clube IPC, marco da arquitetura moderna em Niterói. Acervo Tema Livre.

 

O outro caso é o do clube IPC (Icaraí Praia Clube), construção que dista poucos metros do antigo cinema, logo também situado em área nobre e, igualmente, está de frente para o mar. Em função do alto número de sócios inadimplentes e da crise financeira da agremiação, esta encerrou suas atividades em 2009. Seu prédio foi passado para uma grande construtora em um negócio que ultrapassou os R$ 35 milhões, porém, sem o alarde do cinema Icaraí. Posicionaram-se contra 60 sócios e uma inquilina, que dava aulas de balé no clube há 54 anos, e que chegara a investir financeiramente em seu espaço dentro do IPC. O caso foi parar na justiça, mas isto não impediu que no local venha a ser construído um prédio de alto luxo, com 52 unidades, de três e quatro quartos, que chegam a ter 4 vagas de garagem, e que tem a alcunha de ser “o mais exclusivo da Praia de Icaraí”. As raras unidades que ainda restam para venda estão entre aproximadamente R$ 1.200.000,00 e R$ 1.500.000,00. Uma das coberturas tem mais de 500m².

 

Marco arquitetônico moderno em fase prévia à sua destruição. Acervo Tema Livre.

Acervo Tema Livre.


Para dar lugar a tamanho luxo e beleza, neste fim de semana prolongado para os niteroienses e de comemorações na cidade, ignora-se completamente a demolição do tradicional IPC, sendo que este era um significativo exemplar da arquitetura moderna em Niterói, com suas curvas e pilastras, basicamente sem ornamentos, como tal estilo arquitetônico pede.

 

Detalhe que mostra os traços do modernismo na construção niteroiense. Acervo Tema Livre.

Detalhe que mostra os traços do modernismo na construção niteroiense. Acervo Tema Livre.

 

Tentativa de cerceamento do registro histórico e da memória afetiva: Problema que atinge a população em geral e o ofício de historiadores, jornalistas, fotógrafos e tantos outros profissionais.


O mais curioso no caso IPC, ao menos em relação à Revista Tema Livre, foi que durante sua destruição, fotógrafo da publicação foi fazer registro histórico do fim deste marco moderno da cidade e gerou profundo incomodo em indivíduo que aparentava ser responsável pela obra (Não pode-se afirmar, pois o mesmo não encontrava-se sequer devidamente identificado, com crachá), mas vestia calça jeans e camisa social parda. Talvez fosse um engenheiro? Talvez um corretor? Enfim, o que importa é que mesmo o fotógrafo estando na calçada, em via pública e em pleno vigor democrático, mirando sua lente para o imóvel semi-destruído, o supracitado senhor acabou por convocar alguns trabalhadores da construção civil, que, pouco a pouco, abandonavam o seu caráter cordial e seus postos e transformavam-se em uma espécie grotesca de leões de chácara, tentando, em um tom picaresco, porém, para eles, sério e verdadeiramente intimidador, forjar um cenário lamentavelmente ridículo e cerceador da liberdade de expressão e de imprensa.

 

Foto tirada a partir da calçada da edificação parcialmente destruída. O registro histórico só foi possível pela agilidade do fotógrafo. Acervo Tema Livre.

Foto tirada a partir da calçada da edificação parcialmente destruída. O registro histórico só foi possível pela agilidade do fotógrafo. Acervo Tema Livre.


Provavelmente a reprovável e descompensada atitude nada tem a ver com a internacionalmente reconhecida e respeitável construtora, que sequer imagina que em uma de suas obras esteja a acontecer lamentável tentativa de coerção. Igualmente, pode-se especular que a atitude do senhor de camisa social deva-se, quem sabe, a alguma espécie de insegurança, quem sabe temia uma matéria de cunho investigativo? Porém, como já diz o velho ditado, “quem não deve, não teme!”. Enfim, não há como saber as razões deste senhor. Resta apenas lamentar e apontar sua atitude de coibir o direito do registro do que ainda existia naquele momento do nosso patrimônio histórico, que, provavelmente, até o fim desta semana, terá desaparecido.

 

Trabalhadores da construção civil e a torre do IPC parcialmente destruída. Acervo Tema Livre.

Acervo Tema Livre.


Mais do que o disparate promovido pelo citado senhor, é válido que a partir deste caso ocorrido em Niterói se deixe o registro que cada vez mais torna-se mais difícil fazer registros fotográficos, seja para acervos pessoais ou não, de lugares públicos, que compõem os cenários brasileiros ou os locais relativos à memória afetiva de cada cidadão. Surge, silenciosamente, uma espécie de ditadura, que usa funcionários e/ou seguranças de empresas para impedirem o trabalho de profissionais que necessitam fazer estes registros, e que o fazem mais do que por suas necessidades econômicas, mas por amor a sua profissão, à memória e à História.

 

Voltar às notícias

 

Obituário: falece governador do antigo estado do Rio

Niterói, quarta-feira, 03 de março de 2010.

Geremias Fontes: governador do antigo Estado do Rio.

Geremias Fontes: governador do antigo Estado do Rio.

Foi enterrado no início da tarde de hoje no cemitério Parque da Paz, no Pacheco, São Gonçalo, Geremias de Matos Fontes, que, tendo iniciado sua trajetória política no movimento estudantil, foi prefeito de São Gonçalo (1959-1962), deputado federal (1962-1966) e penúltimo governador do antigo Estado do Rio de Janeiro (1967-1971), quando a capital deste situava-se na cidade de Niterói. Além disto, Geremias Fontes era advogado, formado pela Faculdade de Direito de Niterói (1954), e Pastor evangélico, sendo o presidente da Comunidade Cristã S8 (com sede em Marambaia, São Gonçalo) e da Igreja Batista do Calvário (no bairro do Fonseca, Niterói).

Após seu mandato como governador, em um período em que as campanhas políticas tornavam-se cada vez mais caras e dependentes de empresários, Geremias Fontes abandonou definitivamente a vida política, para dedicar-se integralmente às suas atividades profissional, social e religiosa. Nesta época, Geremias Fontes acolheu em sua própria residência vários jovens que queriam abandonar as drogas e, dentre suas realizações, destaca-se a de ter participado, ainda na década de 1970, da criação da Comunidade Cristã S8, que ainda hoje atua, no Rio de Janeiro (Botafogo), Niterói (Icaraí e Gragoatá) e São Gonçalo (Marambaia), junto à recuperação de dependentes químicos.

Geremias Fontes vivia uma vida simples junto à sua esposa Nilda F. Fontes e, nos últimos meses, vinha sofrendo complicações do diabetes, tendo falecido na manhã do dia 02 de março, aos 79 anos. Geremias Fontes deixa viúva, oito filhos, 23 netos e dois bisnetos.

 

Voltar às notícias

 

Niterói Antiga

Região central da cidade

Para mais fotos de Niterói, acesse as exposições virtuais:

Crepúsculo Niteroiense – parte I

Crepúsculo Niteroiense – parte II 

Centro
Antiga Estação das Barcas situada na Praça Arariboia.

Antiga Estação das Barcas situada na Praça Arariboia.

 

 
 
Estação das barcas: década de 1940.

Estação das barcas: década de 1940.

 
Praça Martim Afonso e a Estação das Barcas (1957). Nota-se o uso do bonde e de trólebus.

Praça Martim Afonso e a Estação das Barcas (1957). Nota-se o uso do bonde e de trólebus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Barca

Barca

 

 

 

 

 

 

 

Correios

Correios

 

 

 

Centro de Niterói, antes do aterro.Hoje esse trecho é ocupado pela Praça JK, que faz parte do caminho Niemeyer

Centro de Niterói, antes do aterro.Hoje esse trecho é ocupado pela Praça JK, que faz parte do caminho Niemeyer

 

 

 

Avenida Amaral Peixoto: década de 1940.

Avenida Amaral Peixoto: década de 1940.

 

 

 

 

 

 

 

Amaral Peixoto na década de 1970: ao fundo, à esquerda, o prédio do fórum.

Amaral Peixoto na década de 1970: ao fundo, à esquerda, o prédio do fórum.

 

 
Foto do Aterrado Norte (primeira metade da década de 1970, no governo Raimundo Padilha): hoje, no local, há o Bay Market, o Terminal João Goulart e o Caminho Niemeyer.

Foto do Aterrado Norte (primeira metade da década de 1970, no governo Raimundo Padilha): hoje, no local, há o Bay Market, o Terminal João Goulart e o Caminho Niemeyer.

 

 

 
Centro da cidade na década de 1950: nota-se a estação das barcas e a avenida Amaral Peixoto.

Centro da cidade na década de 1950: nota-se a estação das barcas e a avenida Amaral Peixoto.

 

Loja da Mesbla, no centro da cidade.

Loja da Mesbla, no centro da cidade.

 
Prédios da Mesbla e do Teatro Imperial (hoje, no local, há o Plaza Shopping) nos idos de 1963.

Prédios da Mesbla e do Teatro Imperial (hoje, no local, há o Plaza Shopping) nos idos de 1963.

 

 

 
 
Gragoatá e São Domingos
Estação Cantareira (barcas para o Rio): São Domingos, década de 1900.

Estação Cantareira (barcas para o Rio): São Domingos, década de 1900.

 

 

 
 
Zona Sul

 

Icaraí e Santa Rosa

 

Campo de São Bento: 1893.

Campo de São Bento: 1893.

 

 

 

 

Campo de São Bento e Porciúncula.

Campo de São Bento e Porciúncula.

vvv

Pedra de Itapuca em fotos de finais do século XIX.

Pedra de Itapuca em fotos de finais do século XIX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedra do Índio e, ao fundo, os bairros de Icaraí e Santa Rosa (ao fundo, com o monumento dedicado à santa católica)

Pedra do Índio e, ao fundo, os bairros de Icaraí e Santa Rosa (ao fundo, com o monumento dedicado à santa católica)

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto de Icaraí, em 1902, na altura da estrada Fróes, quando a área ainda era designada como Canto do Rio.

Foto de Icaraí, em 1902, na altura da estrada Fróes, quando a área ainda era designada como Canto do Rio.

 

 

 

 

Açougue da família Bittencourt, situado na rua Moreira César, 331 (o número fica em frente à rua Oswaldo Cruz).

Açougue da família Bittencourt, situado na rua Moreira César, 331 (o número fica em frente à rua Oswaldo Cruz).

 

 
Equipe de vôlei do IPC, na praia de Icaraí, em foto de 1939.

Equipe de vôlei do IPC, na praia de Icaraí, em foto de 1939.

 

 

 
Antigo prédio do Hotel Casino Icaraí, na praia de Icaraí com Miguel de Frias, onde hoje é a reitoria da UFF.

Antigo prédio do Hotel Casino Icaraí, na praia de Icaraí com Miguel de Frias, onde hoje é a reitoria da UFF.

 
Vista do bairro de Icaraí em 1957, quando Niterói ainda era capital do Estado do Rio.

Vista do bairro de Icaraí em 1957, quando Niterói ainda era capital do Estado do Rio.

 
Praia de Icaraí, em 1941, com o trampolim.

Praia de Icaraí, em 1941, com o trampolim.

 

 

Praia de Icaraí, aproximadamente no trecho entre o Central e a Belisário Augusto.

Praia de Icaraí, aproximadamente no trecho entre o Central e a Belisário Augusto.

 
Cinema Icaraí, ainda à época do seu funcionamento.

Cinema Icaraí, ainda à época do seu funcionamento.

 
São Francisco, Charitas e Jurujuba

 

Aero Clube Fluminense, que ocupava boa parte do bairro da Charitas.

Aero Clube Fluminense, que ocupava boa parte do bairro da Charitas.

 

Charitas, vista do alto da Igrejinha de São Francisco, na década de 1980.

Charitas, vista do alto da Igrejinha de São Francisco, na década de 1980.

 

 

 
 
Anos de 1970: Hotel e Restaurante Samanguaiá, em Jurujuba.

Anos de 1970: Hotel e Restaurante Samanguaiá, em Jurujuba.

 
Boa Viagem
 
Ilha da Boa Viagem: final do século XIX.

Ilha da Boa Viagem: final do século XIX.

 

Foto tirada a partir da ilha da Boa Viagem em 1902. À esquerda da ponte, no século XX, aterro, onde hoje funciona o campus Praia Vermelha da UFF.

Foto tirada a partir da ilha da Boa Viagem em 1902. À esquerda da ponte, no século XX, aterro, onde hoje funciona o campus Praia Vermelha da UFF.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Mirante da Boa Viagem, onde hoje está o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC)

Mirante da Boa Viagem, onde hoje está o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC). À direita, parte do bairro do Ingá.

 
Construção do MAC no mirante da Boa Viagem: 1993.

Construção do MAC no mirante da Boa Viagem: 1993.

 
 
 
Zona Norte

 

 

Fonseca

 

Alameda São Boaventura: 1922.

Alameda São Boaventura: 1922.

 

 
 
Região Oceânica

 

 

 

Encalhe do navio Camboinhas, no final da década de 1950, na então praia de Itaipu (posteriormente, o trecho do encalhe ganhou o nome Camboinhas)

Encalhe do navio Camboinhas, no final da década de 1950, na então praia de Itaipu (posteriormente, o trecho do encalhe ganhou o nome Camboinhas)

Itaipu

Itaipu

 

Itacoatiara e a Pedra do Elefrante.

Itacoatiara e a Pedra do Elefante.

Ensino e vivências: as apreensões da história local no cotidiano da sala de aula

Texto de Anderson Fabrício Moreira Mendes

“É o saber da História como possibilidade e não como determinação. O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da História, mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não para me adaptar,mas para mudar”1.

Diante das adversidades que a educação tem enfrentado, a construção de um conhecimento dinâmico e motivador torna-se um desafio cada vez maior, porém, jamais intransponível. No que diz respeito ao ensino de história, uma das perguntas mais recorrentes entre os alunos é: para que estudar história? Essa questão, aparentemente simples, tem as suas raízes fincadas na universidade, onde os debates historiográficos, propulsores de novos conceitos, lançam nas mãos dos novos e inexperientes professores uma vasta gama de conhecimentos que se chocam com a realidade do ensino fundamental e médio.

As contradições entre teoria e prática, discurso e realidade levam o professor de história a se indagar sobre o seu papel em sala de aula e como fazer com que os conteúdos de sua matéria não sejam estranhos e distantes do mundo do aluno. A produção acadêmica desvinculada do ensino, o ambiente escolar, ainda com um arcabouço arcaico, o vasto conteúdo programático baseado em uma historiografia tradicional são problemas apontados pelos professores. Como, então, o ensino de história pode despertar e estimular o aluno?

Em meio a essas dificuldades na estrutura educacional vigente é preciso encontrar novos caminhos, que não seja o de uma adesão acrítica à ideologia neoliberal/conservadora, que impõe um ensino reprodutivista, onde “a história serve de legitimadora e justificadora do projeto político de dominação burguesa””2. Nem tampouco, limitar-se ao meio acadêmico como único centro de produção do conhecimento, instaurando dessa forma “a lógica do produto (o Grande Livro de História) e o monopólio da produção (os Grandes Historiadores) contra a possibilidade de o ensino de História ensejar a universalização dos produtores e o diálogo entre diferentes produções”.3

Na última década, alguns avanços são percebidos, na tentativa de elaborar propostas que articulem questões atuais ao conteúdo tradicional, a produção acadêmica interagindo com a sociedade, apreendendo e dialogando com o saber dos desconhecidos, aprendendo com suas vivências. Projetos que:

a. Pensam a escola como um espaço de renovação, o lugar onde tradições e idéias, possam ser discutidas e não simplesmente reproduzidas, buscando, por exemplo, na realidade dos alunos a própria experiência de classe, historicizando os conflitos, mostrando que os estudantes, como sujeitos ativos e não passivos da história, estão inseridos nesse debate e podem mudar e transformar a sua realidade;

b. Enxergam o professor como sujeito de seu tempo, capaz de apreender e criticar, individual ou coletivamente a sociedade em que se insere, propondo transformá-la, efetivamente, através de propostas político-pedagógicas e a partir da escola..4

Um conhecimento revolucionário, aberto ao novo, porque suas esperanças e expectativas não estão fundamentadas em um discurso utópico, distante do mundo concreto, mas na capacidade do ser humano que reflete sobre a sua própria limitação e é capaz de se libertar, através do exercício da ação modificadora da realidade, rompendo com o discurso conformista. Um “educar” comprometido com a formação de um Ser humano que não espera acontecer, cair do céu, “mas porque sabe, faz a hora” , a sua vez, como voz ativa na construção de um discurso contra hegemônico. O ensino de uma história viva e transformadora!

A história local, trazendo à tona acontecimentos, atores e lugares comuns ao estudante faz com que este se aproxime da disciplina, percebendo a relação dialética entre o passado desconhecido e o presente, tão próximo. Pode-se, a partir desse ponto, estabelecer uma problematização que estimule o aluno a sair da curiosidade ingênua, conduzindo-o a um conhecimento crítico da realidade, contribuindo para a construção de sua consciência histórica e o amadurecimento de sua cidadania.

O interesse pela história local surgiu a partir do curso de História Oral que fiz na Universidade Federal Fluminense, quando estava na graduação em 2002. Sob a orientação dos professores Ismênia de Lima Martins, Hebe Mattos e Paulo Knauss, trabalhei no levantamento histórico do bairro de São Lourenço, do século XVI aos dias atuais, através das fontes secundárias, com documentos do período colonial e imperial. E em um segundo momento, no 2º semestre de 2003, na condição de monitor de pesquisa das professoras Hebe de Mattos e Ismênia de Lima Martins, nas entrevistas com os moradores do Outeiro de São Lourenço, juntamente com os demais colegas da turma, o que proporcionou a produção de um material que tornou-se a base empírica da minha monografia de bacharelado.

 

O LOCAL E A CIDADE: SÃO LOURENÇO DOS ÍNDIOS E NITERÓI

Visto como primeiro núcleo de povoamento da região, surgido no período da expulsão dos franceses da Baía de Guanabara, no século XVI, o aldeamento de São Lourenço foi tornando-se cada vez mais, ao longo do desenvolvimento da região, um espaço marginal, insalubre e distante dos ideais de urbanização. Por seus problemas geográficos – um morro cercado por um mangue – e por questões sociais – área de índios, tornou-se uma região distante dos ideais europeus trazidos pela corte portuguesa, no século XIX, que influenciaram na disciplinarização do espaço e normas de convívio social5. Quando, em 1819, foi criada a Vila Real da Praia Grande, o plano de urbanização proposto não apresentava nenhuma continuidade territorial com a antiga aldeia de São Lourenço.

O bairro só sairá do anonimato, passando a fazer parte da história da “heróica e virtuosa cidade” , nas primeiras décadas do século XX, com as obras de urbanização da cidade, o aterro do mangue, o processo de tombamento da igreja de São Lourenço dos Índios, a discussão em torno da figura de Araribóia e a inserção, no calendário da cidade, da missa em comemoração a fundação de Niterói, celebrada naquela capela. Contudo, o reaparecimento do bairro revela o fim de um espaço indígena, logo, uma área ocupada por novos atores, imigrantes portugueses e espanhóis, em sua maioria, além de migrantes do interior do Estado e descendentes de escravos, que constroem uma nova relação com o espaço.

Ao abordar a história de São Lourenço, partindo de uma visão mais global, inserindo-a no contexto nacional e regional, a memória emerge como fio condutor, dando sentido aos acontecimentos históricos, encadeados nas páginas da municipalidade e no discurso dos desconhecidos moradores do outeiro.

O discurso oficial, construído pela municipalidade, conferiu à imagem do chefe terminó e sua aldeia um papel embrionário na construção da cidade. A imponente estátua no centro da cidade e o busto na praça do outeiro são pontos de contato que adquirem na memória consagrada uma simbologia rica, contudo, distante de uma cronologia exata e arraigada em um tempo mítico. Mito político que reconstrói a narrativa histórica de forma criativa, reestruturando o seu sentido, sendo um instrumento importante para consciência social. Não só Niterói elabora sua identidade, a partir das gloriosas vitórias dos terminós, liderados por seu bravo guerreiro, em apoio à causa do valente Capitão Estácio de Sá, mas expande-se, ao exalar na atmosfera nacional a conquista e consolidação do território para metrópole portuguesa, fincando em solo nativo as marcas da civilização européia, anunciando um novo tempo. Tempo que Niterói reivindica para si, como herdeira do notável passado, que se re-atualiza na história da profícua cidade, com olhar atento para o progresso. Espraia-se também no cotidiano dos anônimos de São Lourenço, na valorização do Morro, através do discurso histórico, que estes utilizam ao reclamarem as melhoras no seu espaço. Essa imaginária “organiza simbolicamente o tempo histórico dos homens da cidade, presentificando o passado, sacralizando-o em bases afetivas e inscrevendo-o na paisagem”6.

Núcleo de povoamento, baluarte de defesa da Guanabara, Vila Real, Cidade Imperial, Capital da Província, Cidade Invicta, Cidade Sorriso, “quarta cidade em qualidade de vida do Brasil” , Niterói, ao longo da história, passa por várias transformações – urbanas, econômicas, políticas e sociais – diversificando o seu espaço. Nesse processo, a cidade ideal esbarra nas contradições do mundo real: os problemas físicos que procuraram ser erradicados pelo saber médico-higienista e engenheiro-urbanista, buscando mudar a paisagem insalubre; o impacto da Revolta da Armada (1893) e da Revolta Popular – o famoso quebra-quebra das barcas (1959) – na estrutura urbana; os traumas causados pelas tragédias públicas, sendo o incêndio do circo (1961) o mais doloroso para a cidade. Todavia, o discurso do “progresso” maquila essa complexidade, configurada no espaço múltiplo, estruturando e reestruturando uma memória oficial que valoriza a cidade moderna, ancorada no virtuoso passado, imortalizado nos lugares de memória. Cidade de identidade plural, percebida pelo exame cuidadoso do imaginário urbano – fio simbólico que une e dá forma ao tecido das representações e dos significados ao longo de sua história.

 

OS ANÔNIMOS CONTAM A HISTÓRIA

A memória oficial, construída ao longo da história da cidade de Niterói, vinculando o espaço do morro de São Lourenço, no universo da imaginária urbana, não é rejeitada ou refutada pelos moradores do local, ao contrário, reforça a identidade comunitária, que se apropria desta, projetando o outeiro para além de suas fronteiras naturais, definidas e reafirmadas, em relação ao morro da Boa Vista e a favela do Sabão, comunidades inseridas dentro do mesmo bairro. A comunidade residente no outeiro, consciente da historicidade do espaço, diferencia-se das demais, tidas como espaços marginais e destituídas do mesmo significado histórico. O grandioso passado reveste o território de uma rica simbologia, revelando uma dimensão mítica, que não falseia ou inventa os acontecimentos, todavia torna-os emblemáticos, ampliando o seu significado. Vincula-se, dessa forma, o local, ao regional e ao nacional.

Vivências e experiências relatadas no cotidiano associam as representações do passado com a dinâmica do presente, relacionando dialeticamente o anterior, o tempo de Araribóia e o posterior, o tempo atual dos orgulhosos moradores locais. O projeto7 apreendido na construção dessa memória coletiva usa a lembrança das virtuosas batalhas indígenas, aspecto desbravador do aldeamento e os vestígios materiais desse outro tempo, esquecendo-se, contudo, de qualquer outra ligação com essa cultura do passado. Da mesma forma a cidade usa a figura de Araribóia para projetar-se na conjuntura nacional, contudo, o outeiro no dia a dia da Niterói do futuro, é colocado na galeria de um longínquo passado, distanciado e inscrito nas empoeiradas páginas das efemérides da cidade. Páginas remexidas e sacudidas pela voz da comunidade que re-atualiza a memória, ritualizada na Festa de São Lourenço, festa popular e religiosa realizada pela comunidade no dia 10 de agosto, e a Festa de Fundação da Cidade, promovida pela prefeitura no dia 22 de novembro, que marcam a especificidade desse pitoresco espaço8.

 

A HISTÓRIA LOCAL NO COTIDIANO ESCOLAR: SÃO LOURENÇO E O COLÉGIO ESTADUAL BRIGADEIRO CASTRIOTO

Entender a história do bairro e da cidade através dos personagens vivos e ativos da comunidade faz com que a análise historiográfica esteja aberta às experiências humanas e as transformações sociais sejam apreendidas com mais profundidade. Da mesma forma, a vivência dos alunos no cotidiano da sala de aula, atualiza o debate histórico. Por isso, nada mais propício do que trabalhar a história do bairro em um colégio da rede estadual, nele inserido. O CEBRIC (Colégio Estadual Brigadeiro Castrioto), estabelecido no bairro desde a década de 1970, atualmente, procura se adequar aos parâmetros curriculares, mas depara-se com algumas dificuldades. Uma das diretoras, Sônia Regina Fontes Coutinho, ocupando esta função há oito anos, traça um perfil do ambiente escolar ressaltando os seguintes pontos:

a. Uma grande parte do corpo discente é composta por moradores de fora da comunidade, muitos, inclusive de São Gonçalo;

b. A maioria dos alunos, principalmente na última década, vem de escolas municipais, que têm o sistema de aprovação automática, fazendo com que os estudantes matriculados na 5ª série do Ensino Fundamental e no 1º ano do Ensino Médio, essas séries em especial, apresentem uma grande dificuldade de aprendizado na leitura e na escrita. O perfil desse aluno leva o colégio a buscar um caminho intermediário, onde haja uma adaptação de ambos os lados, o que muita das vezes faz com que a qualidade do ensino fique prejudicada. As professoras de História Claudia Maria Correia e Estela Ferreira Faria também destacam um desinteresse geral dos estudantes, o que a diretora encara como uma auto-estima muito baixa.

c. Uma grande parte dos professores, antigos na escola, utilizam um sistema tradicional de avaliação que não se adequa a realidade do aluno. O processo de aprendizagem fica comprometido, pois os educadores não conseguem atualizar-se, devido à pesada carga horária e a omissão do próprio Estado, na concretização de políticas que promovam cursos de especialização. Quando conseguem fazer algum curso, se deparam com a inviabilidade de executar seus projetos, entravados pela infraestrutura da escola arcaica e tradicional.

d. Por sua vez, as atividades extraclasses dinamizam a vida escolar. Projetos como a “Escola para além dos muros”. Uma parceria com a Universidade Federal Fluminense, aonde os alunos vão para os Espaço de Ciências e aprendem com os laboratórios e oficinas; “Jovens Talentos” – um convênio com a Fundação CECIERJ (Fundação Centro de Ciências e Educação Superior à Distância do Rio de Janeiro), ligado à FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Ampara à Pesquisa do Rio de Janeiro), onde os melhores alunos do 2º ano do ensino médio são encaminhados para aprender com professores universitários em seus trabalhos de pesquisa. Dentro da escola também funciona uma oficina de reciclagem de papel.

e. Apesar de destacar uma ligação mais estreita com a Universidade Federal Fluminense, a diretora, também professora de história, ressalta que até hoje não conseguiu nenhum contato com o Departamento de História dessa universidade, nenhum projeto e lamenta estar tão próxima de um dos melhores cursos de História do país e não conseguir nenhum benefício para escola nessa área.

Os problemas apontados no cotidiano da escola são comuns a outras realidades espalhadas por todo país. Contudo, o CEBRIC tenta superar as dificuldades investindo em atividades fora da sala de aula, sendo receptivo a qualquer medida que contribua para melhora no ambiente escolar. Logo, o contato com a escola foi extremamente proveitoso. A escola colocou-se à disposição, entendendo a importância da pesquisa e sua relevância para o estudante.

Os professores de história, nas entrevistas, salientaram que por meio do conhecimento da localidade, de um espaço comum aos alunos seria muito mais prático passar os conceitos históricos, pois estes apreenderiam com muito mais facilidade os demais conteúdos da matéria a partir de uma realidade histórica que se aproximasse de seu cotidiano. O estudante a partir de então, veria a sua localidade, ou a localidade onde está situada sua escola, de uma outra forma. Deram sugestões como: trabalhar o material da pesquisa através de resumos de textos em sala de aula, onde os próprios professores, associando a novidade à proposta de uma História Integrada, atuariam com uma dinâmica mais agradável partindo do local ao internacional e vice-versa, como por exemplo, as guerras no Rio de Janeiro para expulsar os franceses – que não se submetiam às regras do Tratado de Tordesilhas – fato que causou a fundação da Aldeia de São Lourenço dos Índios; estimular a interdisciplinaridade por meio de oficinas de teatro; e passeios pelo bairro para melhor apreensão da diversidade cultural e temporal.

A Direção destaca ainda, que o conhecimento histórico da localidade é essencial para levantar a auto-estima desse estudante, tão desestimulado, pois conhecer o seu meio social, também é uma forma de conhecer-se e entender que a sociedade e o homem estão sempre em transformação. Transformação que leva a uma reflexão sobre a realidade atual e que medidas seriam possíveis para mudar e romper com as dificuldades sociais, políticas e econômicas do cotidiano.

O primeiro contato com os alunos foi através de uma palestra, onde a história do bairro foi apresentada de uma forma mais geral. Os alunos foram participativos, debatendo, intervindo, revelando um interesse pelo conteúdo histórico, visto, anteriormente, tão distante e tão estranho. Consciência histórica que se despertou a partir do entendimento da própria história contada pelos moradores do outeiro de São Lourenço. Entende-se, portanto, que o conhecimento histórico não deve ser privilégio dos acadêmicos ou dos professores, mas construído por todos, refletido e estimulado no contexto da sala de aula.

Temas como a colonização do Brasil, a questão indígena, nacionalidade, podem ser trabalhados no dia a dia da sala de aula, em oficinas com jornais, revistas, fontes primárias e imagens. A interdisciplinaridade também está implícita no projeto podendo fazer contato com a Literatura, por meio da história da capela em estilo barroco e do Auto de São Lourenço, através das mudanças no espaço está ligado à Geografia e, até mesmo a biologia por meio do estudo do meio ambiente. Enfim, abre-se um leque de oportunidades para escola, onde o aluno através do conhecimento do seu meio adquire um olhar crítico e uma postura diferente diante dos problemas do bairro que afetam não só a comunidade residente, mas a própria escola.

Estas foram as primeiras atividades do projeto que pretende, acima de tudo, contribuir para o crescimento do aluno enquanto cidadão, entendendo o seu espaço, sua história e colocando-se como um sujeito ativo e participativo, não conformado com a realidade adversa.

Mesmo sendo um exemplo pontual, pode-se perceber as possibilidades de integração universidade-sociedade, através de um curso de História Oral: articula-se com setores da comunidade relativos ao tema de estudo; dá voz aos agentes ignorados pela história oficial; sistematiza esse conhecimento e junto com as demais fontes existentes, problematiza e desenvolve um trabalho de pesquisa; retorna à mesma comunidade, disponibilizando à escola do bairro um material útil e relevante para o ensino da história local, revelando aos estudantes a dinâmica e a diversidade do processo de modificação e estruturação do espaço, que não é dado, mas construído; estimula a comunidade a reivindicar melhoras para o seu espaço; reflete sobre a aplicação do conhecimento no campo do ensino, o que contribui para o amadurecimento da pesquisa; e revela que o ensino da história local, por meio de medidas de amplo alcance, debates e discussões, pode viabilizar medidas pedagógicas que vão além da escola local e do próprio bairro.

Um ensino de história que não se restringe à academia, mas que está aberto ao debate com a sociedade, construindo-se e reconstruindo-se no ambiente escolar, ouvindo o aluno e percebendo o seu meio. Pensando, refletindo, intervindo sem jamais se entregar a um discurso fatalista. História local que não se restringe ao nome de ruas, personagens importantes ou datas comemorativas, mas que insere o aluno em um contexto histórico que lhe é comum, relacionado com toda uma conjuntura nacional e internacional. Aprendendo a partir do que está mais próximo, problematizando situações diárias na vida do estudante e inserindo-as na dinâmica de um contexto histórico mais amplo, o professor consegue não só estimular o aluno a entender a história, vendo a disciplina como algo relevante, mas motiva-o a interagir na construção e elaboração do conhecimento, através do diálogo democrático e de uma ação efetiva que o conduza a conscientização de sua cidadania.

 

NOTAS

1 – FREIRE, Paulo. PEDAGOGIA DA AUTONOMIA. São Paulo, Paz e Terra, 1996, pp. 85,86.

2 – NADDAI, Elza. O Ensino de História e a ‘Pedagogia do Cidadão’. In: O ENSINO DE HISTÓRIA E A CRIAÇÃO DO FATO. São Paulo, Contexto, 2004.

3 – SILVA, Marcos A. Ensino de História, Exclusão Social e Cidadania Cultural – Contra o horror pedagógico. In: A MEMÓRIA DO ENSINO DE HISTÓRIA. Santa Cruz do Sul, EDUNISC/ ANPUH, 2000. p.117.

4 – HELFER, Nadir Emma. A memória do ensino de História. In: A MEMÓRIA DO ENSINO DE HISTÓRIA. Santa Cruz do Sul, EDUNISC/ ANPUH, 2000.

5 – CAMPOS, Maristela Chicharo de. RISCANDO O SOLO.: O PRIMEIRO PLANO DE EDIFICAÇÃO PARA A VILA REAL DA PRAIA GRANDE. Niterói, RJ. Niterói Livros, 1998.

6 – KNAUSS, Paulo. Introdução. In: SORRISO DA CIDADE. SORRISO DA CIDADE – IMAGENS URBANAS E HISTÓRIA POLÍTICA DE NITERÓI. Niterói, RJ. Niterói: Fundação de Arte de Nierói, 2003.p. 11.

7 – VELHO, Gilberto. Memória, Identidade e Projeto. REVISTA TB, nº 95, p. 119-126, out/dez. 1988.

8 – Foram realizadas várias entrevistas com os moradores do Outeiro de São Lourenço no período de dezembro de 2003. Este material está organizado no Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI) da Universidade Federal Fluminense.

 

Conheça outros artigos disponíveis na Revista Tema Livre na seção "Temas".

Lúcio Ferreira de Azevedo

A seguir, a entrevista que o Cônsul Honorário de Portugal em Niterói, Lúcio Ferreira de Azevedo, concedeu a Revista Tema Livre no último dia 18 de Fevereiro, na qual ele fala sobre o Consulado de Portugal em Niterói e a Colônia Portuguesa da cidade, conta a sua chegada ao Brasil, com apenas 16 anos de idade, e as dificuldades que encontrou ao chegar em um novo país.

Revista Tema Livre – Quando se iniciaram as atividades do consulado de Portugal em Niterói e quais as suas atribuições e área de abrangência?

Lúcio Ferreira de Azevedo – Bom, na realidade, nós fomos nomeados em 1999 e assumimos em fevereiro de 2000 o cargo de cônsul honorário de Portugal em Niterói. Isso abrange não só Niterói, como São Gonçalo, e vai até a região dos lagos. As pessoas nos procuram aqui para: autenticar documentos, autenticar procurações, atestado de residência, e não só atendemos os portugueses, mas os brasileiros também, os que pretendem estudar em Portugal ou que pretendem trabalhar lá, ou mesmo até em outro país da Europa. Como hoje Portugal está inserido na Comunidade Européia, vários brasileiros vêm a nós para reconhecer diplomas, certificados, então aí que eu calculo que hoje o atendimento ele é mais ou menos 50% para portugueses e 50% para brasileiros. Nós aqui não tratamos, por exemplo, de passaportes, de direitos de igualdade, mas agendamos para o consulado geral, no Rio de Janeiro. Quando a pessoa tem interesse em trabalhos que nós não temos autonomia para fazer, somente o consulado geral é que tem, aí é que entra a nossa colaboração em fazer o elo com o consulado do Rio, orientando as pessoas e agendando também para que elas possam ser atendidas lá no consulado geral.

RTL – A colônia portuguesa de Niterói possui cerca de quantas pessoas?

Azevedo – Olha, aqui em Niterói, como é uma cidade muito unida a São Gonçalo, normalmente, quando se fala em termos de colônia portuguesa a gente abrange Niterói e São Gonçalo. No passado, isso há 20, 30 anos, já passaram de 15.000. Hoje, nós calculamos em volta de 5 000 portugueses natos, que moram em Niterói e São Gonçalo.

RTL – Quais são as principais atividades que essa comunidade exerce?

Azevedo – A principal atividade é o comércio. Comércio de padarias, de açougues, de roupas, de calçados, além dos industriais, sendo alguns de móveis, temos, também, empresários de ônibus… Essas são as principais atividades, além de executivos que tem vindo recentemente, porque de uns 20 ou 30 anos para cá a imigração para o Brasil diminuiu muito, e o tipo de imigração que existe hoje, embora pequena, mas é uma imigração bem diferente daquela imigração antiga. Hoje ele já vem diplomado, formado, para ser executivo, por exemplo, a própria CERJ (Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro), que hoje é administrada por portugueses e espanhóis, temos vários portugueses trabalhando aí, mas já com curso superior, são engenheiros, economistas e etc.

RTL – O sr. veio para o Brasil em que ano? E porque o Brasil?

Azevedo – Eu vim para o Brasil em 1952. Cheguei aqui, em Niterói mesmo, em 30 de maio de 1952. E o principal motivo de eu ter emigrado eu acho que foi o da maioria dos portugueses que emigraram naquela altura: é porque havia uma guerra colonial entre Portugal e Angola e 90% dos portugueses que serviam no serviço militar faziam estágio em Angola. E entre ir para Angola, para guerra, e vir para o Brasil, como imigrante, a opção de vir para o Brasil era bem melhor, na realidade, vontade de vir para o Brasil, que sempre foi para Portugal o eldorado, a terra prometida, e eu, garoto, vim para o Brasil, com 16 para 17 anos. Se eu não viesse, no ano seguinte, teria que me apresentar à inspeção do serviço militar, e só podia viajar até os 16 anos. Com 17 anos completos já não deixavam viajar mais porque já estava se aproximando o serviço militar. Mas aí, nós que aqui chegamos em 30 de maio, e estamos há mais de 50 anos, felizmente, com muita luta, muito trabalho, já aprendemos há muito tempo a fazer do Brasil a nossa terra. Hoje, eu vou a Portugal como visita, passeio, mas eu considero o Brasil a minha terra, até porque a minha esposa é brasileira, os filhos, os netos, os amigos… então, realmente, eu hoje considero a minha terra o Brasil. Apesar, naturalmente, de continuar amando Portugal. Mas não amo menos o Brasil que Portugal.

RTL – De onde o sr. é ?

Azevedo – Do Porto, da cidade do Porto.

RTL – Qual a principal dificuldade que encontrou ao chegar ao Brasil?

Azevedo – Eu acho que a dificuldade de todo imigrante. Porque o imigrante ele é a mesma coisa que o filho que é criado com o carinho dos pais, com a proteção dos pais, e um dia ele perde isso e vai a vida, e tem que lutar sozinho com os seus próprios esforços. O imigrante também é assim. Cheguei com 16 anos e tive que enfrentar 14, 15, 16 horas de trabalho por dia e, naturalmente, todo imigrante pensa em fazer uma economia. Isso é a primeira coisa que vem a cabeça do imigrante é fazer uma economia, porque ele quer provar para ele mesmo e para a família que ele é capaz. E aí, normalmente, o imigrante não mede esforços. Ele vai a luta, trabalha, e não tem dia de descanso. Eu, por exemplo, fiquei os primeiros três anos que passei no Brasil sem descansar um dia. Trabalhei sempre sábado, domingo, feriado, todo dia. A prova é que com 19 anos eu me estabeleci. Aquela altura os salários também não eram bons assim, mas trabalhando em excesso de hora, ganhava hora extra, então meu salário dobrava. Juntei a economia, e eu, com 19 anos, já tinha uma economia naquela altura de 300.000 cruzeiros. Para ter uma idéia do que é isso, o salário mínimo naquela altura era 2.400. Quando eu cheguei era 1.200. Em 1955 era 2.400. Um garoto, com 19 anos, com salário de 2.400, ter uma economia de 300.000 era porque eu ganhava bem mais que o salário. Bem mais pelo motivo de trabalhar horas extras e ter praticamente dois empregos. Eu fui trabalhar na confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro, mas, fora da confeitaria, trabalhava também para os clientes que faziam festividades no final de semana, às vezes trabalhava a noite toda, e domingo a confeitaria não abria, mas abria a filial da Colombo em Copacabana, e eu estava lá, trabalhando, e aos feriados, eu estava lá, trabalhando… então, daí que com 19 anos eu tinha uma economia que quase dava para me estabelecer, e um amigo, acompanhando esse meu esforço, esse meu trabalho, me colocou mais 500.000 cruzeiros naquela época para que eu me estabelecesse, e me estabeleci com uma pequena mercearia e confeitaria aqui em Santa Rosa (Zona Sul de Niterói), na avenida 7 de setembro. E daí veio a luta. Passados alguns anos, eu comprei uma loja na rua Moreira César com Belizário Augusto (Icaraí, Zona Sul de Niterói), onde teve lá a Luciu’s Lanches por muitos anos, depois teve também a Luciu’s Roupas, que era uma filial, e hoje é a Mister Cat, que a loja é minha e eu a aluguei. E daí a luta nesses 50 anos. Naturalmente, hoje a gente não faz os esforços que fazia naquela época, mas durante muitos anos, muitos anos mesmo, a luta foi grande, a luta foi árdua. Para ter uma idéia eu cheguei aqui em Niterói com 16 anos e o meu peso era 70 quilos, três anos depois, eu pesava 57 quilos. Perdi 13 quilos… então aí a prova do esforço. Três anos sem descansar um dia. Trabalhando 15, 16 horas por dia… E eu acho que o brasileiro quando ele imigra faz mais ou menos isso. Já estive nos Estados Unidos, no Canadá, onde eu conheci brasileiros que estão lá juntando dinheiro para comprar uma casa aqui no Brasil, para se estabelecerem, e aqui eles não fariam os esforços que fazem lá. De maneira nenhuma. Quando a pessoa imigra ela vai com aquela vontade mesmo. E eu acho que o homem consegue tudo aquilo que ele quer. É uma questão de força de vontade. É isso aí…

RTL – Finalizando, Portugal, do período salazarista, quando o sr. veio para o Brasil, até os dias de hoje, da Comunidade Européia, mudou muito. Qual a maior mudança que o país sofreu na sua opinião?

Azevedo – Bom, eu acho que Portugal é um país que tinha poucos ricos e muitos pobres, e hoje todo mundo tem um bom padrão de vida. Aqueles que naquela época eram ricos, hoje, não são tanto, a coisa está mais socializada. E eu acho que isso é uma tendência de todo o mundo. É a tendência de todos os países do mundo. Eu acredito que o Brasil, em pouco tempo, também vai experimentar essa nova situação social, que eu acho inclusive que nós já estamos vivendo o caminho para essa situação. Pelo menos é o que o nosso presidente Lula está prometendo. Fome zero… que, eu aliás, acho que um país como o Brasil, rico por natureza, é crime passar fome. Eu acho que ninguém pode passar fome nesse país. Eu acho que no Brasil há oportunidade para todos, mas por uma questão de educação de povo, por uma questão de orientação do governo, que precisa oferecer mais oportunidades… Mas eu acho que nós já estamos nesse caminho. Eu acho que é por aí mesmo.

O Consulado de Portugal em Niterói está localizado na rua da Conceição, nº 57. Centro – Niterói – RJ.

Telefone: (21) 2719 – 7839
Fax: (21) 2719 – 8910

Consulado Geral de Portugal (Rio de Janeiro): (21) 2544 – 2444 / (21) 2544 – 3382

Fotografia – Crepúsculo Niteroiense – parte II

Crepúsculo Niteroiense – parte II
Niterói au Soleil Couchant – part II
Niterói´s Sunset – part II

 

O MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, simbolo da cidade) visto da praia de Icaraí./Le MAC (Musée d´Arts Contemporain de Niterói, symbole de la ville) vu de le plage de Icaraí/The MAC (Art Contemporary Museum of Niterói, city´s symbol) viewed by Icaraí beach.

O MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, simbolo da cidade) visto da praia de Icaraí./Le MAC (Musée d´Arts Contemporain de Niterói, symbole de la ville) vu de le plage de Icaraí/The MAC (Art Contemporary Museum of Niterói, city´s symbol) viewed by Icaraí beach.

 

 

 

Mirante do Parque da Cidade. Ao fundo, Baía de Guanabara e a cidade do Rio de Janeiro./Parc-Belvédère de la Ville de Niterói. Au fond, la Baie de Guanabara et la ville Rio de Janeiro/Niterói´s Park. In the back, Guanabara´s bay and Rio de Janeiro city.

Mirante do Parque da Cidade. Ao fundo, Baía de Guanabara e a cidade do Rio de Janeiro./Parc-Belvédère de la Ville de Niterói. Au fond, la Baie de Guanabara et la ville Rio de Janeiro/Niterói´s Park. In the back, Guanabara´s bay and Rio de Janeiro city.

 

 

Entrada da Baia de Guanabara vista do Parque da Cidade./L'entrée de la Baie de Guanabara vue du Parc-Belvédère./The entrance of Guanabara's bay viewed from Niterói's Park.

Entrada da Baia de Guanabara vista do Parque da Cidade./L'entrée de la Baie de Guanabara vue du Parc-Belvédère./The entrance of Guanabara's bay viewed from Niterói's Park.

 

Forte do Gragoatá. Ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro./Le Fort du Gragoata. Au fond, la ville Rio de Janeiro./"Forte Gragoata". In the back, Rio de Janeiro city.

Forte do Gragoatá. Ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro./Le Fort du Gragoata. Au fond, la ville Rio de Janeiro./"Forte Gragoata". In the back, Rio de Janeiro city.

 

Campus (Gragoatá) da Universidade Federal Fluminense. Ao fundo, a Baía de Guanabara./Le campus de l'Université Fédéral Fluminense (Gragoatá). Au fond, la Baie de Guanabara./The campus of the University Federal Fluminense (Gragoatá). In the back, Guanabar´s Bay.

Campus (Gragoatá) da Universidade Federal Fluminense. Ao fundo, a Baía de Guanabara./Le campus de l'Université Fédéral Fluminense (Gragoatá). Au fond, la Baie de Guanabara./The campus of the University Federal Fluminense (Gragoatá). In the back, Guanabar´s Bay.

 

 

 

 

 

 

 

GALERIAS DE OUTRAS EDIÇÕES

Lisboa – 1ª parte (edição 12

TN_torrebelemsilhueta12

 

 

Concelho de Feira (edição 11)

TN_casteloextgeral11

 

 

Porto (edição 10)

TN_ponteporto0210

 

 

Barcelos (edição 09)

TN_barcelos0909

 

 

Mar português (edição 08)

TN_caboroca0108

 

 

Conimbriga, vestígios de Roma (edição 07)

TN_conimbriga0207

 

 

Aveiro, a Veneza portuguesa (edição 06)

TN_aveiro406

 

 

Palácio de Queluz (edição 05)

TN_embqueluz05

Inauguração da exposição "Imagens de Portugal"

 

 

Crepúsculo Niteroiense: 1ª parte

TN_coqueiro04

 

 

Voltar à Edição

 

 

 

 

 

 

Fotografia – Crepúsculo Niteroiense: parte I

Crespúsculo Niteroiense – parte I
Niterói au Soleil Couchant – part I
Niterói´s Sunset – part I

 

Estrada Fróes - Icaraí, Niterói. Ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro.

Estrada Fróes – Icaraí, Niterói. Ao fundo, Rio de Janeiro./"Estrada Fróes" – Icaraí, Niterói. Au fond, la ville Rio de Janeiro./Froes' Road – Icaraí, Niterói. In the back, Rio de Janeiro city.

 

 

Ilha da Boa Viagem, no bairro da Boa Viagem, na cidade de Niterói.  Île de Bon Voyage - Bon Voyage, Niterói.

Ilha da Boa Viagem, no bairro da Boa Viagem, na cidade de Niterói./Íle de Bon Voyage, Niterói./"Boa Viagem" Island – Niterói.

 

 

 

Mirante do Parque da Cidade/Parc-Belvédère de la Ville de Niterói/Niterói's Park.

Mirante do Parque da Cidade/Parc-Belvédère de la Ville de Niterói/Niterói's Park.

 

 

Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC). Simbolo da cidade, o MAC, projetado por Oscar Niemayer, é considerado uma das sete maravilhas do mundo moderno.  Musée d´Arts Contemporain de Niterói (MAC), symbole de la ville. Projeté par Oscar Niemayer, le MAC est devenu l´une des sept merveilles contemporaines.  Art Contemporary Museum of Niterói (MAC). City´s symbol, MAC, was projected by Oscar Niemayer, it´s considered one of the seven modern world londer´s.

Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC): projetado por Oscar Niemayer, o símbolo da cidade é considerado uma das sete maravilhas do mundo moderno./Musée d´Arts Contemporain de Niterói, symbole de la ville et projeté par Oscar Niemayer, le musée est devenu l´une des sept merveilles contemporaines./Art Contemporary Museum of Niterói:.the city's symbol was projected by Oscar Niemayer and it's considered one of the seven modern world londer's.

 

 

Praia de Icaraí - Icaraí, Niterói.  Plage de Icaraí au soleil couchant - Icaraí, Niterói.  Icaraí Beach - Icaraí, Niterói.

Praia de Icaraí – Icaraí, Niterói./Plage de Icaraí au soleil couchant – Icaraí, Niterói./Icaraí Beach – Icaraí, Niterói.

 

 

A seção fotos foi inaugurada na edição 03 da Revista Tema Livre com a presente exposição.

 

 

GALERIAS DE OUTRAS EDIÇÕES

Lisboa – 1ª parte (edição 12

TN_torrebelemsilhueta12

 

 

Concelho de Feira (edição 11)

TN_casteloextgeral11

 

 

Porto (edição 10)

TN_ponteporto0210

 

 

Barcelos (edição 09)

TN_barcelos0909

 

 

Mar português (edição 08)

TN_caboroca0108

 

 

Conimbriga, vestígios de Roma (edição 07)

TN_conimbriga0207

 

 

Aveiro, a Veneza portuguesa (edição 06)

TN_aveiro406

 

 

Palácio de Queluz (edição 05)

TN_embqueluz05

nauguração da exposição "Imagens de Portugal"

 

 

Veja, também, belíssimas fotos do Brasil:


Crepúsculo Niteroiense: 2ª parte

TN_mac03

 

 

Voltar à Edição