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Prof. Dr. James Naylor Green (California State University)

A seguir, a entrevista que o brasilianista da California State University James Naylor Green concedeu à Revista Tema Livre, no dia 30 de julho de 2003, durante o XXII Encontro Nacional de História, em João Pessoa, na Paraíba. Na entrevista, o historiador fala da oposição ao regime militar brasileiro nos Estados Unidos, da sua atuação como militante em movimentos contra a Guerra do Vietnã e aos regimes militares latino-americanos, além dos seus trabalhos a respeito da América Latina. 

O brasilianista James N. Green durante a sua conferência no Simpósio.

O brasilianista James N. Green durante a sua conferência no Simpósio.

 

Revista Tema Livre – Primeiramente, qual o tema da sua conferência que será proferida hoje?

James Naylor Green – Eu vou falar sobre a oposição à ditadura militar brasileira, que foi realizada nos Estados Unidos nos anos 60/70. 

RTL – E como ocorreu essa oposição nos Estados Unidos?

Green –Primeiro, houve um contato de um grupo de brasileiros com clérigos e acadêmicos norte-americanos, em 69, pedindo ajuda para denunciar internacionalmente a tortura e a repressão no Brasil. Esses acadêmicos e clérigos montaram um comitê para tentar divulgar informações sobre a situação política no Brasil e enfrentaram um certo boicote, um bloqueio, uma filtração da mídia americana, que realmente não acreditava e não exigia provas da questão da tortura. Então, eles montaram todo um esquema de colocar artigos denunciando as torturas, fazendo outras atividades para romper esse bloqueio da informação da grande mídia norte-americana e, realmente, lograram fazer isso. Hoje à noite vou falar mais sobre a atividade dos brasilianistas, ou seja, os acadêmicos norte-americanos que estudam o Brasil, e que cumpriram um papel fundamental nessas campanhas de denúncia à ditadura militar, apoiando os abaixo-assinados, colocando avisos pagos no “The New York Times” denunciando, por exemplo, a prisão do Caio Prado Junior em 70, ou seja, tentando criar uma nova imagem do Brasil. O Brasil, antigamente, sempre foi visto como país tropical, de carnaval, de Carmem Miranda, dos índios, e essas pessoas tentaram colocar no imaginário americano outro tipo de realidade sobre o que estava acontecendo no Brasil nos anos mais difíceis da ditadura militar. 

RTL – E surtiu efeito?

Green – Eu acho que sim, ou seja, você não vai poder ver um efeito claro, direto, dramático. Mas, por exemplo, houve toda uma preparação, um trabalho, em 70, para influenciar um senador do Congresso Americano, que realizou, em 71, uma CPI sobre o apoio militar do governo americano ao Brasil. Então, esse senador, Franklin Church, realizou essa CPI em maio de 71, onde várias pessoas apresentaram provas da tortura no Brasil, a situação da repressão, etc e tal, onde eles tentaram fazer uma ligação entre a ajuda militar, a polícia, e essa tortura. O que, na verdade, não ficou muito claro porque não tinham acesso à documentação para provar isso naquela época. Mas, de qualquer modo, isso cria todo um impacto político no Congresso, na sociedade, em Washington, onde se realizou essa CPI e aqui no Brasil também. Os militares ficaram muito chateados com essa CPI, achando que era uma intervenção nos assuntos internos do país, mas, no ano seguinte, o governo americano, o senador americano apresenta no Congresso uma lei, que não foi aprovada, rompendo a ajuda militar ao governo brasileiro. Um ano depois, em 73 e, depois, em 74, com a crise do presidente Nixon com os escândalos de Watergate, houve uma mudança da composição do Congresso, e muitos congressistas começaram a apoiar esta medida de tirar a ajuda militar aos governos que estavam violando os direitos humanos. Neste caso, o Brasil foi o exemplo mais claro naquela época, foi alicerce de todo um trabalho posterior, denunciando a repressão no Brasil. E, com o golpe no Chile, em 73, que foi muito dramático e chocante, o trabalho do Brasil se expande para o resto da América Latina, então cresce a solidariedade, os grupos, e as pessoas que estão fazendo este trabalho. 

RTL – Falando sobre o apoio norte-americano ao regime militar brasileiro, como ele ocorreu?

Green – Bom, no primeiro momento, houve um apoio político antes do golpe de 64. Por exemplo, uma coisa clássica e que é chocante, é que o governo americano já estava canalizando milhões e milhões de dólares para a aliança para o progresso, para ajudar programas de desenvolvimento, com a idéia de que era fundamental combater o comunismo com alternativas de desenvolvimento etc e tal. Assim, eles canalizaram esse dinheiro em vários estados do nordeste onde tinham governadores da direita, e eles boicotaram qualquer apoio financeiro aos governos da esquerda, como Miguel Arraes, em Pernambuco, para que esses governadores beneficiados aproveitassem nas campanhas eleitorais, ou seja, um projeto nobre sempre ajuda na divulgação de um candidato para governador. Então, houve uma interferência direta de meter-se em assuntos internos do país nesse sentido, por parte do governo americano, para manipular a situação política no país. Esse é um exemplo. 

Está bem trabalhado o apoio que o governo americano deu imediatamente depois do golpe de 64 ao novo governo, ou seja, reconhecendo os militares antes mesmo do Jango sair do país. João Goulart ainda estava na sua fazenda no sul, o Congresso decreta que ele havia abandonado o seu cargo, mas ele estava ainda no país, já estava se retirando da presidência, e o governo americano Johnson reconhece o novo governo, todo ilegalmente, mas que estava procurando uma aparência de legalidade. Sabemos que, indiretamente, eles deram sinais aos militares que o governo americano ia apoiar o golpe de 64, e mandaram um barco com petróleo, gás e armas, para que se fosse necessário, se estourasse uma guerra civil, apoiar os militares. Neste caso, quer dizer, quando ficou claro que os militares realmente já tinham consolidado o seu controle sobre a situação, eles retiraram esse apoio que estava sendo mandado para o Brasil. 

Depois, eles mandaram milhões e milhões de dólares para apoiar a economia do novo governo, o de Castelo Branco e o começo do de Costa e Silva, que tiveram problemas econômicos sérios, muita inflação, e o governo americano ajudou muito para tentar dar uma estabilidade à economia brasileira, para sustentar o regime militar. E, na verdade, em 68, 69, após o AI-5, eles vacilaram um momento, vamos retirar o nosso apoio a esse governo, mas resolveram, assim, continuar com o reconhecimento diplomático ao governo militar. 

Em 76, 77, um novo discurso, um discurso sobre os direitos humanos, o governo de Jimmy Carter, então esse discurso de Jimmy Carter vem do trabalho que nós, os ativistas, eu era militante deste movimento, fizemos no público americano, que ele vai apropriando para a campanha eleitoral dele, para mostrar que ele é moral, religioso, que Nixon era um corrupto, um cara imoral, então vai ter um novo rumo a política exterior dos Estados Unidos. 

RTL – Conte-nos a sua experiência como ativista.

Green – Pois bem, eu era um jovem ativista, no movimento contra a Guerra do Vietnã, era estudante universitário entre 68 e 72, participava ativamente, fui preso várias vezes nas manifestações em Washington contra a Guerra do Vietnã e, em 70, eu já tinha caracterizado que a próxima intervenção norte-americana talvez fosse na América Latina. Então, eu e um grupo de pessoas começamos a formar um coletivo, um grupo de estudos para estudar a América Latina. Eu fui para o México para aprender espanhol, me interessava muito as condições da América Latina e, justamente, conheci por acaso um brasileiro exilado, Marcos Arruda, que foi torturado, conseguiu asilo nos Estados Unidos, a mãe dele morava lá, e ele conseguiu ficar nos Estados Unidos e organizou um comitê, “Committee Against Repression in Brazil”, Comitê Contra a Repressão no Brasil, que organizou um protesto contra o Médici na Casa Branca, quando ele foi visitá-la em 71. Me integrei neste grupo em 73, e fizemos todo um trabalho sobre Brasil e, após o golpe de 11 de setembro de 1973, sobre a situação no Chile e, depois, na Argentina, Uruguai e no resto da América Latina. 

RTL – Qual foi o impacto na sociedade norte-americana do fim do regime militar?

Green – Na verdade, infelizmente, o público americano desconhece a realidade brasileira, sabe muito pouco, não acompanha… E mesmo os universitários, que tem uma certa educação, não sabem sobre esta realidade, então o trabalho que foi realizado naquele momento, o trabalho que eu faço como presidente da Associação de Estudos Brasileiros, como professor de história do Brasil lá, é difícil, é contra a corrente, porque há pouca informação. O que eles conseguiram naquela época da ditadura foi criar uma segunda imagem do Brasil, além da garota de Ipanema e carnaval, um país de terror, de tortura, então conviviam duas imagens do país entre as pessoas que liam os jornais e prestavam a atenção e lembravam que o Brasil era na América Latina e não na África etc e tal. Então, na verdade, eu acho que foi pouca informação sobre esse processo de queda da ditadura militar, também porque foi um processo muito lento, não houve momentos dramáticos, assim, de mobilizações massivas. Houve as mobilizações pelas diretas, que saíram nos jornais, as pessoas que acompanhavam podiam saber o que estava acontecendo, não houve o impacto, vamos dizer, da Revolução Sandinista, ou da Revolução do Iran, que enfrentaram diretamente os interesses americanos, então, estão sempre nos noticiários, esta é uma diferença grande. País muito importante, enorme, mas 80% da população americana, infelizmente, não sabe que se fala o português no Brasil, por exemplo. 

RTL – Qual a inserção do historiador na sociedade norte-americana?

Green – Na verdade, o historiador não tem um peso como, talvez, os historiadores aqui tenham, no sentido de que um historiador da USP, facilmente possa fazer uma coluna na Folha de São Paulo e ser conhecido, a sua voz ser importante etc e tal. Nos Estados Unidos tem alguns historiadores, intelectuais que são importantes nos meios intelectuais, quando eles falam em uma questão política, eles são ouvidos porque tem um certo prestígio, mas eu acho muito mais dispersa esta influência, este efeito na sociedade. 

RTL – Finalizando, como o Sr. vê a internet como meio de divulgação da história?

Green – Eu, que ensino história, acho fabuloso e ruim ao mesmo tempo. Por exemplo, meus alunos agora não sabem ler livros, eles só lêem a internet, facilmente você dá uma tarefa deles fazerem uma pesquisa e eles vão sugando da internet essa informação, sem reflexão, copiando, é muito complicado controlar isso. Então, tem o acesso imediato à informação, mas não existe uma maneira de avaliar quais fontes são verídicas e tem valor, de outras que são coisas que qualquer pessoa colocou em uma página, você entrou por uma frase, aparece essa página, você vai lendo aquilo e acha que isso tem um valor, um peso importante, então isso é um problema sério. Por outro lado, facilita muito a pesquisa. Por exemplo, eu estava procurando várias pessoas, um padre que foi preso em 68, eu vi o nome dele no “The New York Times”, eu queria entrevistá-lo, e, de repente, através da internet, eu o localizei, fizemos contato e ele foi entrevistado. Então, a possibilidade de contato imediato é fabulosa. Outro exemplo é que existe a possibilidade de um intercâmbio muito mais rico entre historiadores brasileiros e de outros países, então, eu tenho laços enormes com centenas de acadêmicos brasileiros através da internet, então há um intercâmbio muito rico neste sentido. Isto é bom, isto é muito bom! 

 

 


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Lançamento do livro “Justiça Fardada: o general Peri Bevilaqua no Superior Tribunal Militar (1965-1969)”

O historiador Renato Lemos a autografar um exemplar do seu livro.

O historiador Renato Lemos a autografar um exemplar do seu livro.

Organizado pelo historiador Renato Lemos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o livro “Justiça Fardada: o general Peri Bevilaqua no Superior Tribunal Militar (1965-1969)” teve o seu coquetel de lançamento realizado no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da citada universidade na noite do dia 31 de março de 2004.

No livro encontram-se 33 habeas corpus de personagens ligados a distintos segmentos da sociedade brasileira, como intelectuais, sindicalistas e até mesmo pessoas comuns. Pode-se ler na publicação os habeas corpus de figuras como Fernando Henrique Cardoso, Darci Ribeiro, José Dirceu, Florestan Fernandes e Vladimir Palmeira.

A respeito da pesquisa, Lemos comenta: “Meu interesse surgiu quando trabalhava no Museu Casa de Benjamin Constant e os filhos do general resolveram doar o acervo do pai ao museu. Desde então, estabeleci contato com a documentação e com o personagem, fazendo-os eixo de meus projetos na UFRJ.”

Para a realização do trabalho, o historiador pesquisou no Arquivo Peri Constant Bevilaqua, composto pelas já citadas doações, além de cópias de documentos cedidos pelo Superior Tribunal Militar (STM), e que está disponível no Museu Casa de Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, aberto à consulta.

Sobre o general Bevilaqua (1899 – 1990), neto de Benjamin Constant, que atuou na implementação da República, sua carreira militar tem início no ano de 1917, quando adentra a Escola Militar de Realengo, no Rio, e, a partir daí, presencia e atua em diversos momentos relevantes da história política brasileira do século XX, como, por exemplo, quando a Junta Pacificadora, da qual integrava a secretaria, depõe o presidente Washington Luís; foi também um dos trinta generais que prepararam um manifesto, em 23 de agosto de 1954, exigindo a renúncia de Getúlio Vargas; e quando Jânio Quadros renuncia a presidência, dividindo o campo político-militar em contrários e favoráveis a posse do seu vice, João Goulart, Bevilaqua posiciona-se a favor da solução constitucional, além de ser contrário ao bombardeio que o Ministério da Guerra, para beneficiar os golpistas, ordenou ao Palácio do Governo gaúcho, de onde o então governador Leonel Brizola liderava a Cadeia da Legalidade.

Com a instalação do regime militar, em 1964, e a chegada de Castelo Branco a presidência, Bevilaqua permanece como chefe do Estado Maior das Forças Armadas, entretanto, não deixa de divergir das opções econômicas e repressivas do novo governo, inclusive, a posicionar-se contra o primeiro Ato Institucional do citado regime. Em 15 de fevereiro de 1965, dois decretos presidenciais mudam a posição do general dentro do governo: é exonerado da chefia que ocupava desde a época de Jango e é nomeado ministro do Superior Tribunal Militar, onde não abandona a sua postura, continuando, assim, a divergir de diversos posicionamentos do governo.

A respeito da trajetória política de Bevilaqua, Lemos afirma que “Na minha opinião, o general é a encarnação do militar legalista do período 46-64, com todas as contradições que a postura legalista encerra, em especial diante dos processos de lutas sociais. Depois de 1964, ele foi, com certeza o que de melhor havia na oposição militar ao regime ditatorial.”

Assim, no STM, Bevilaqua concedeu diversos habeas corpus, posicionou-se contra o Ato Institucional nº 2 e foi a favor da liberdade dos perseguidos pelo regime vigente, o que levou, em janeiro de 1969, ao seu afastamento arbitrário do STM, com base no AI-5, três meses antes de completar 70 anos, quando se reformaria compulsoriamente, tendo, também, as suas condecorações militares confiscadas, devolvidas apenas em 2002, doze anos após o seu falecimento.

capa_justiçaCapa do livro “Justiça Fardada: o general Peri Bevilaqua no Superior Tribunal Militar (1965-1969)”.
Organizador: Renato Lemos
Editora: Bom Texto
Nº de páginas: 367
Formato: 16x23cm

 

 

 

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Nina de Pádua

Nina de Pádua

A atriz carioca Nina de Pádua

Abaixo, os principais trechos da entrevista exclusiva que a atriz Nina de Pádua concedeu à Revista Tema Livre, no último dia 06 de maio, onde ela fala da peça Calabar, de Chico Buarque e Rui Guerra, proibida pela censura em 1973; a influência de Bibi Ferreira na sua formação como atriz; e ainda, do papel do historiador nas novelas de época.

REVISTA TEMA LIVRE – Qual seu nome completo ?

Nina de Pádua – Meu nome completo é Nina de Pádua Andrade

RTL – E o local de nascimento ?

Nina – No Rio de Janeiro, aliais no estado da Guanabara, em Botafogo

RTL – E porque ser atriz ?

Nina – Olha, eu comecei muito novinha, desde cedo, desde seis anos de idade, no colégio, eu já lhe dava com isso. Foi uma coisa meio que natural, não foi uma decisão muito pensada, eu fui começando a trabalhar e a coisa foi acontecendo, eu fui me tornando atriz, quando eu vi, já não dava para voltar atrás.

Asdrúbal Trouxe o Trombone: Perfeito Fortuna, Nina de Pádua, Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Patrícia Travassos e Evandro Mesquita.

Asdrúbal Trouxe o Trombone: Perfeito Fortuna, Nina de Pádua, Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Patrícia Travassos e Evandro Mesquita.

RTL – Profissionalmente, adulta, como você começou, qual foi a sua primeira peça ?

Nina – Olha, então eu vou começar com uma brincadeirinha que eu sempre falo que eu digo que eu não estreei profissionalmente, porque minha primeira peça profissional adulta foi uma peça chamada CALABAR, do CHICO BUARQUE e do RUY GUERRA, que foi proibida pela censura em 1973. Foi um marco no teatro porque era uma peça muito aguardada, muito esperada, era uma peça política, em plena ditadura, e era uma peça que falava sobre traição, sobre um monte de coisas que todo mundo tava na expectativa, e essa peça não aconteceu. Ela já estava pronta para estrear e a polícia federal censurou, então não houve estréia, então esse marco é muito forte, porque eu costumo dizer que minha estreia profissional não aconteceu… Outra coisa muito importante da qual me orgulho e gosto de citar, é que eu fui participante de um grupo chamado ASDRUBAL TROUXE O TROMBONE , do qual saíu essa turma toda aí, Luís Fernando Guimarães, Regina Casé, Evandro Mesquista, Patrícia Travassos, Perfeito Fortuna e eu. Então eu tenho muito orgulho disso, essa é uma delas, mas como tem 31 anos de carreira, eu ia ficar aqui a noite inteira falando.

RTL – Como era fazer teatro com a censura ?

Nina – Na verdade, não só fazer teatro, como viver na ditadura foi muito difícil, era muito complicado, porque não se tem liberdade, e quando você não tem liberdade, eu acho que morre muita coisa, é muito complicado. CALABAR especialmente foi uma marco para a gente porque… inclusive foi assim… se não me engano foi um pré-exílio do CHICO BUARQUE, quer dizer, uma época muito conturbada, muito dificl, quando CALABAR foi proibido, sequer podia sair no jornal a palavra CALABAR, para você ter idéia, quer dizer, os produtores não podiam sequer anunciar que havia sído proibido porque não podia sair CALABAR escrito, então foram anos muito duros, perdemos muitas pessoas importantes, muita gente bacana, eu era menina, mas sem dúvida alguma eu já fazia teatro, e já acompanhava, já sofria na pele. Então houveram pessoas que apanharam da polícia, houveram pessoas que foram presas e houcveram pessoas que foram mortas e que desapareceram. Então foram anos muito tristes e que sem dúvida alguma nos trouxeram toda essa violência que a gente tá vivendo hoje em dia.

Cinema: cena do filme "Me beija" (1984) de Werner Schunemann. Pela sua atuação no longa, Nina de Pádua foi premiada como melhor atriz no 2º Rio Cine Festival.

Cinema: cena do filme “Me beija” (1984) de Werner Schunemann. Pela sua atuação no longa gaúcho, Nina de Pádua foi premiada como melhor atriz no 2º Rio Cine Festival.

RTL – E sobre a sua atuação no Cinema ?

Nina – No cinema eu também fiz muitas coisas bacanas, muitos filmes que eu gostei muito de ter feito e graças a Deus vários deles com muito sucesso, um dos que eu cito, que é um sucesso até hoje, porque ele sempre passa no Canal Brasil e na Bandeirantes que é o “Menino do Rio”, que é um filme que, engraçado, eu acho que não envelheceu, apesar de falar da juventude da década de 80, porque ele é um filme de 1980, ele hoje em dia fala das mesmas coisas que acho que a garotada tá vivendo, então esse é um filme muito bacana que eu gosto de citar.

RTL – E a sua estréia na Televisão ?

Nina – A minha estréia na televisão foi engraçado foi a última coisa que fiz foi televisão, primeiro fiz teatro, e depois cinema e por ultimo fui para televisão. E eu estreei em um programa chamado MALU MULHER (Globo, 1979/1980), que era estrelado pela Regina Duarte, e do qual tive muito orgulho de fazer, foi uma alegria muito grande.

Nina de Pádua e José Mayer: com Deborah Evelyn formavam triangulo amoroso na novela "A Gata Comeu" (1985), de Ivani Ribeiro, dirigida por Herval Rossano. A trama ´-e, até os dias de hoje, a maior audiência das 18h da Rede Globo.

Nina de Pádua e José Mayer: com Deborah Evelyn formavam triangulo amoroso na novela “A Gata Comeu” (1985), de Ivani Ribeiro, dirigida por Herval Rossano. A trama ´-e, até os dias de hoje, a maior audiência das 18h da Rede Globo.

RTL – Qual foi a sua primeira novela ?

Nina – A minha primeira novela foi uma novela chamada “EU PROMETO” (Globo, 1983), foi a última novela da Janete Clair e a primeira da Glória Perez, porque a Janete Clair morreu no meio da novela e a Glória Perez assumiu a continuidade da novela e a levou até o final. Foi uma novela que foi lançada um monte de gente, eu, Cláudia Gimenez, Fernanda Torres, Malu Mader, essa turma toda estreou nessa novela, e foi uma novela bacana que passou no horário das dez.

RTL – E como foi a sua experiência fora da Globo ?

Nina – Eu trabalhei em várias emissoras, fiz

Nina de Pádua em cena da novela "A Gata Comeu" (1985), maior audiência das 18h da Globo até os dias de hoje. Na trama de Ivani Ribeiro, dirigida por Herval Rossano, a atriz interpretou Ivete, filha de Ceição (Dirce Migliaccio) e Seu Oscar (Luís Carlos Arutin) e irmã de Nanato (Sylvio Perrone). Foto do clã.

Cena de “A Gata Comeu”. Na trama, a atriz interpretou Ivete, filha de Ceição (Dirce Migliaccio) e Seu Oscar (Luís Carlos Arutin) e irmã de Nanato (Sylvio Perrone). Foto do clã.

novela no SBT, na MANCHETE, na BANDEIRANTES, que aliais não era TV BANDEIRANTES, era uma produtora independente [TV PLUS], e que era vendida para a Bandeirantes. Foi sempre muito bacana, sempre fui muito feliz nos meus trabalhos em televisão.

RTL – Quais os trabalhos que te deixaram mais saudades ?

Nina – Olha, eu tenho muito carinho pela “GATA COMEU”(Globo, 1985), que é uma novela que vive reprisando e as pessoas adoram, e eu adoro também, tenho muita saudade daquela época, tem um outro trabalho que eu considero muito importante que muitas pessoas também se lembram chamado ” A MÁFIA NO BRASIL”(Globo, 1984), que eu fazia uma delegada, foi uma minissérie, também foi muito bacana, um papel muito legal, e outra que eu tenho o maior carinho, a maior lembrança, que também foi um sucesso estrondoso na Televisão chamava-se Dona Beija (Manchete, 1986), foi uma novela sensacional que eu adorei fazer.

RTL – A “Dona Beija” era uma novela passada no século XIX, então, eu gostaria de te perguntar qual o papel do historiador nas novelas de época ?

Nina – Sem dúvida alguma a importância é imensa, porque é ele que nos dá a diretriz de comportamento, de maneira de andar, de sentar, quais eram os costumes, é ele que orienta não só ao elenco, como também ao próprio autor da novela. Então sem dúvida alguma o papel do historiador é fundamental, não dá para fazer uma novela sem o acompanhamento de um bom historiador.

RTL – Você já foi agredida em função de algum papel ?

Nina – Eu nunca passei por essa coisa de ser agredida, mas eu já fui chamada a atenção, uma determinada ocasião, exatamente porque matei o Reginaldo Faria na novela, a mulher queria me bater no meio da rua (risos).

RTL – Quem te influênciou na sua formação como atriz ?

Nina- Olha, muitas pessoas, muitos grandes atores foram meus ídolos, e tenho a impressão que meu grande ídolo, minha grande “idala” e quem me motivou a talvez a ter ido parar no teatro, em uma analise mais profunda se eu fosse fazer, talvez tivesse sido Bibi Ferreira, vi grandes musicais com Bibi Ferreira quando eu era menina, vi “MY FAIR LADY”, vi “ALO DOLLY”, e aquilo era encantador, porque eram produções de primeiríssima categoria, elencos imensos, maravilhosos, e foi muito bacana ter assistido aquilo com 6/7 anos de idade. Sem dúvida alguma BIBI Ferreira deve ter me influenciado bastante.

Nina de Pádua com Jô Soares: nos anos de 1980 a atriz fez parte do elenco do extinto "Viva o Gordo".

Nina de Pádua com Jô Soares: nos anos de 1980 a atriz fez parte do elenco do extinto “Viva o Gordo”, na Rede Globo.

RTL – Como você analisa o atual momento da teledramaturgia brasileira ?

Nina – Olha… a teledramaturgia é uma coisa assim, que eu nem sei falar muito… porque eu acho que tem novelas extremamente repetitivas, insossas e sem graça, mas ao mesmo tempo você vê trabalhos muito bacanas na televisão, eu não acompanhei essa novela “O CLONE” (Globo, 2001/2002), mas pelo que eu pude perceber parece que foi um trabalho muito legal, muito feliz da Glória, que trata de temas muito atuais e tal. Eu sou muito fã, por exemplo, de Manuel Carlos, todas as novelas dele eu acho sensacionais, ele tem um diálogo espetacular, muito bacana. Existem minisséries sensacionais, a gente vê coisas aí. Então por exemplo, a novela é uma coisa meio massificante, não muito tem como sair daquele rami rami. Mas em coisas excepcionais, como essa novela das oito e algumas miniséries, são sensacionais, temos autores maravilhosos.

RTL – E os “reality shows”?

Nina – (risos) Isso aí, já é mais complicado… é uma coisa nova, mas… eu acho que até já saturou um pouco, porque é novo até a página 3, depois você já sabe o mecanismo do jogo aquilo se torna um tanto repetitivo, e pouco criativo, porque todo mundo sabe que tá sendo filmado., então pouco verdadeiro, eu acho um pouco chato (risos)

RTL – Fala-se da pouca assiduidade do brasileiro no teatro, você concorda com isso ?

Nina – Olha eu acho que não, acho que o brasileiro adora teatro, e adora bom teatro. O problema é que a política do governo em relação a incentivos, tudo isso, é complicado, e aí acaba se tornando um pouco mais caro, quer dizer, é caro para o espectador, mas é muito barato para o produtor, que em geral o preço do ingresso não paga o custo de uma produção. Então isso é muito difícil. Agora eu acho que o público disposto a ver ele sempre está, o bom teatro o público gosta, curte, e nada substituí a presença, a relação direta ator-espectador, como acontece no teatro.

Nina de Pádua em programa da Rede Record, emissora da qual a atriz é contratada.

Nina de Pádua em programa da Rede Record, emissora da qual a atriz é contratada.

RTL – Como você vê o atual quadro cultural do país ?

Nina – Bom… eu acho que a cultura foi um pouco abandonada… esses anos todos, mais ainda nos vinte anos de ditadura que a gente viveu, agora a gente tem um povo muito bacana e muito rico culturalmente, então, com todos os não favorecimentos e os não incentivos que esses governos todos vêm praticando, independente disso a cultura do povo brasileiro é muito forte, ele é muito ligado ao folclore, a arte, a uma série de coisas, e é muiito rico, então é sempre maravilhoso, acxho que nunca vai morrer.

RTL – E para você o Rio de Janeiro ainda é a capital cultural do país ?

Nina – Infelizmente, vou ter que ser um pouco bairrista, dizer que é óbvio que sim, São Paulo está tentando desesperadamente, mas não é fato. Porque as coisas acontecem no Rio de Janeiro, viram moda no Rio de Janeiro, e daqui se espalham para o resto do país.