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Prof. Dr. António Manuel Hespanha (Universidade Nova de Lisboa)

A seguir, a entrevista que o historiador António Manuel Hespanha, da Universidade Nova de Lisboa, concedeu a Revista Tema Livre, realizada no dia 29 de julho, durante o XXII Simpósio Nacional de História.

 

O professor António Manuel Hespanha durante conferência no Simpósio.

O professor António Manuel Hespanha durante conferência no Simpósio.

 

Revista Tema Livre – Qual o tema da sua conferência no XXII Simpósio Nacional de História?

António Manuel Hespanha – Eu procurei refletir com os meus colegas acerca da natureza do poder. E a minha idéia principal é que o poder não está tanto no sítio onde nós julgamos que ele está, ou seja, no Estado, na polícia, nos tribunais, mas no fundo está em todo o lado, nas nossas próprias casas, nas relações com os nossos amigos, e que em casa um desses lugares ele se manifesta de uma forma diferente. E que é isso que precisa ser estudado pela história política.

RTL – Qual a diferença entre a história política e história do Estado?

Hespanha – É justamente isso, é que se reduzirmos a história política à história do Estado há muitos fenômenos de poder que ficam fora e que nós nunca vimos, e o que temos que ver e é explicativo da sociedade é justamente esse outro poder que está fora do Estado. Porque nem na sua vida nem na minha, o Estado, se calhar, nunca entrou. Nunca esteve na cadeia, nunca teve querelas com tribunais, enfim, o Estado na sua vida não entrou, na minha que sou bastante mais velho também praticamente não entrou, e, no entanto, nós não somos livres. Não somos livres por quê? Porque há muitos poderes na sociedade que não são o Estado. E é nesses que é preciso que nós, para criticarmos a sociedade atual ou para percebermos as sociedades históricas, é que temos que atentar.

RTL – Qual a inserção do historiador na sociedade portuguesa?

Hespanha – Os historiadores têm alguma importância na sociedade portuguesa e nas outras não portuguesas também, porque ajudam a perceber o presente. Os historiadores tratam sobre o passado, mas, no fundo, tem que servir, como toda a gente, ao presente e, por isso, se a história não tiver nenhum significado para o presente, para tornar a sociedade actual mais perfeita, menos injusta, a história não tem grande sentido. Ou seja, o historiador não deve ser só um amante de coisas antigas, do passado pelo passado, mas deve tentar perceber a sociedade em que vive, para melhorá-la naturalmente.

RTL – Como estão as relações acadêmicas entre Portugal e o Brasil?

Hespanha – Muito melhor que há uns anos. Hoje em dia há contactos e trocas regulares entre professores dos dois países e as coisas estão a melhorar muito, já não é a velha retórica da fraternidade, é mais do que isso, as pessoas estão a trabalhar mesmo.

RTL – Qual a importância, na sua opinião, de um evento como a ANPUH?

Hespanha – Bom, é muito grande, para mim é absolutamente inédito porque nunca tinha visto reunidos tantos professores universitários de história. Portugal é um país pequenino, o Brasil é um país muito grande, e tem muita gente e muito boa gente.

RTL – Finalizando, em Portugal há a discussão sobre a regulamentação da profissão do historiador? E se há, qual o seu posicionamento?

Hespanha – Não, não há. Esse problema em Portugal não se pôs sobre a regulamentação da profissão do historiador. Devo dizer que nem sei eu o que se quer dizer com isso. As regras da profissão do historiador nós sabemos, nós historiadores sabemos quais são, temos que ser honesto com as fontes, consultar as fontes, seguir as regras da arte… Mas isso não é nada que possa ser imposto por leis, digamos, está dentro do coração de cada historiador, da consciência de cada historiador, como fazer a história. Não creio que a lei possa adiantar nada.