A antropóloga e historiadora foi eleita na última quinta (7), e ocupa a nona cadeira, que pertenceu ao diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva

 

Na última quinta-feira, dia 7, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras, onde ocupará a cadeira número 9, que pertenceu ao historiador especializado em cultura africana — e também seu amigo pessoal — Alberto da Costa e Silva até seu falecimento no ano passado. Lília Schwarcz é a 11ª mulher a integrar a ABL desde sua fundação em 1897, escolhida por 24 dos 38 intelectuais aptos a participar da votação. São 40 cadeiras no total, das quais quatro são ocupadas por mulheres atualmente, e a renovação de membros só acontece quando um dos acadêmicos falece.

Lilia Moritz Schwarcz no Roda Viva (TV Cultura).

Na ABL, há uma tradição de preencher cadeiras vagas com acadêmicos cujo perfil se assemelha ao de seus antecessores. Para Lília, a candidatura à cadeira que pertenceu a Alberto da Costa e Silva significava mais do que apenas semelhanças entre suas áreas de estudo. Ambos eram estudiosos do movimento negro, da igualdade racial, e da herança africana na cultura brasileira, o que aproximou-os em sua vida pessoal também. No dia de sua eleição, Lília declarou em um post em suas redes sociais: “Começamos a conversar faz quase 30 anos e nunca mais paramos. Alberto virou meu conselheiro, meu braço direito e esquerdo, meu incentivador mais bondoso e também um crítico severo. Compartilhamos artigos, livros, coleções, entrevistas e uma vida de trocas intelectuais e afetivas”. Para Lília Schwarcz, ocupar sua cadeira também é honrar sua memória, como completa no post: “Falava com Alberto toda semana, o visitava e o ouvia sempre. Alberto era uma pessoa justa, bondosa, generosa, um intelectual de mão cheia. Espero honrar e seguir as diretrizes que ele deixou na ABL. Sinto tanta falta dele sempre, e ainda mais nesse dia. Mas me oriento pelas lições que ele deixou e assim sigo em frente”.

Lilia Schwarcz é graduada em História e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, onde leciona atualmente no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). A antropóloga também atua como visiting professor (professora convidada, em tradução livre) na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e é cofundadora — com seu marido, o editor Luís Schwarcz — da Companhia das Letras, a maior editora do Brasil. Seu trabalho e pesquisas têm como foco as estruturas raciais e formação da identidade nacional brasileira, abordando temas como o racismo, a escravidão e o período imperial do Brasil de forma crítica. Ela também é membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Iphan, e do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da República.

Além de seus trabalhos como professora e pesquisadora, Schwarcz publicou mais de 30 livros em sua carreira. Dentre eles, destacam-se: As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um Monarca nos Trópicos, publicado em 1998 e vencedor do Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não-Ficção em 1999; O Sol do Brasil, biografia do pintor francês Nicolas-Antoine Taunay que venceu o Prêmio Jabuti na categoria Biografia em 2009; e Batalha do Avaí, vencedor pro Prêmio ABL de História e Ciências Sociais em 2014.

Lília Schwarcz se juntará a Rosiska Darcy de Oliveira, Ana Maria Machado, Fernanda Montenegro e Heloisa Teixeira pra compor a presença feminina na Academia. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Lília afirma que sua presença na instituição não apenas perpetua o legado das imortais anteriores, mas que pretende “lutar pela causa feminista na Academia sob um viés interseccional, que considera opressões de gênero, raça, classe e sexualidade”. Quando foi fundada 127 anos atrás por Machado de Assis, estava previsto em suas diretrizes que apenas brasileiros – enfaticamente no masculino – poderiam se candidatar a integrar a ABL. Foi apenas em 1977, com a aceitação da escritora Rachel de Queiroz, que mulheres passaram a fazer parte da instituição.

 

Texto: Julia Alencar*
Arte: Joyce Tenório**

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg

**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

JORNAL DA USP

 

 

#Acervo Ouça o Podcast revistatemalivre.com que teve como convidada a historiadora Lilia Schwarcz

 

 

 

Prêmios e condecorações

1999 – Livro do ano não ficção, Prêmio Jabuti (CBL), pela obra As Barbas do Imperador.

1999 – 2º lugar na categoria Ensaio e Biografia, Prêmio Jabuti (CBL), pela obra As Barbas do Imperador.

2008 – Medalha Júlio Ribeiro (por destaque cultural e etnográfico) da Academia Brasileira de Letras.

2009 – 1º lugar na categoria Biografia, Prêmio Jabuti (CBL), pela obra O Sol do Brasil.

2010 – 3º lugar na categoria Ciências Humanas, Prêmio Jabuti (CBL), pela obra Um enigma chamado Brasil.

2010 – Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico.

2014 – Prêmio ABL de História e Ciências Sociais (ABL), pela obra Batalha do Avaí.

2016 – 1º lugar na categoria Arquitetura, Urbanismo, Artes e Fotografia, Prêmio Jabuti (CBL), pela obra Histórias Mestiças: Catálogo.

2023 – Comenda Rio Branco.

 

Obras

Retrato em Branco e Negro: Jornais, Escravos e Cidadãos em São Paulo no Fim do Século XIX. Companhia das Letras, 1987. ISBN 8585095180

O Espetáculo das Raças. Cientistas, Instituições e Pensamento Racial no Brasil: 1870-1930. Companhia das Letras, 1993. ISBN 8571643296

As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um Monarca nos Trópicos. Companhia das Letras, 1998. ISBN 8571648379 – Prêmio Jabuti – Livro do ano 1999.

O Império em Procissão. Zahar, 2000. ISBN 9788537806531

A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis: Do Terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. Companhia das Letras, 2002. ISBN 8535902880

O Sol do Brasil: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY e as Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João 1816-1821. Companhia das Letras, 2008. ISBN 9788535911855 – Prêmio Jabuti – Melhor Biografia 2009

D. João Carioca: A Corte Portuguesa Chega ao Brasil 1808-1821. Companhia das Letras, 2008. ISBN 9788535911206

Um Enigma Chamado Brasil (com André Botelho). Companhia das Letras, 2009. ISBN 8535915494 – Prêmio Jabuti – Ciências Sociais 2010

Agenda Brasileira (com André Botelho). Companhia das Letras, 2011. ISBN 9788535918748

História do Brasil Nação Vol. 3: A Abertura para o Mundo 1889-1930 (Org. do volume e Diretora da Coleção). Objetiva, 2012. ISBN 9788539003860

Nem Preto nem Branco, muito pelo Contrário. Claro Enigma (Companhia das Letras), 2012. ISBN 9788581660233
Racismo no Brasil. Publifolha, 2012. ISBN 978-8574023175

A Batalha do Avaí, a Beleza da Barbárie: A Guerra do Paraguai Pintada por Pedro Américo. Rio de Janeiro, Sextante. 2013. ISBN 9788575429969

Brasil: Uma Biografia (com Heloisa Murgel Starling). Companhia das Letras. 2015. ISBN 9788535925661

Lima Barreto: Triste Visionário. Companhia das Letras, 2017. ISBN 9788535929133

Sobre o Autoritarismo Brasileiro. Companhia das Letras, 2019. ISBN 978-8535932195

Quando Acaba o Século XX. Companhia das Letras, 2020. ASIN B08D9T62H6

A Bailarina da Morte: A Gripe Espanhola no Brasil. Companhia das Letras, 2020. ISBN 978-8535933918

 

 

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