Umas breves palavras antes do texto:
No último dia 9 de maio, a historiadora argentina Hilda Sabato, vinculada à Universidade de Buenos Aires e autora de sólida produção acadêmica dedicada, sobretudo, à história política argentina, teve seu artigo “A 50 años del golpe. La democracia que supimos conseguir” publicado no jornal portenho La Nación.
Sobre o periódico, este foi fundado em 1870 pelo historiador e ex-presidente argentino Bartolomeu Mitre e é, hoje, um dos mais lidos de toda a Argentina. No contexto dos debates que acontecem no país vizinho quando completam-se 50 anos do golpe de Estado que instalou a última ditadura, La Nación levou aos seus leitores o texto de Hilda Sabato. Nele, a pesquisadora traz importantes reflexões relativas à democracia argentina nas últimas cinco décadas, discutindo, ainda, os usos do passado e suas relações com o atual momento político argentino, questões caras aos historiadores e, também, à sociedade em geral.
Porém, ainda que traga uma análise concernente à Argentina, o que por si só já faria o texto merecedor de ser traduzido, o material provoca reflexões que inspiram o exame crítico do que se vive em diversas democracias contemporâneas ao redor do mundo. Portanto, como desde 2002 a Revista Tema Livre publica, virtualmente, material realizado por pesquisadores com o objetivo de divulgar o conhecimento, trazemos, aqui, a versão em português das análises realizadas por Hilda Sabato em um dos principais jornais argentinos, porém, com uma pequena adaptação em seu título para a realidade do público de língua portuguesa, a saber: “A democracia argentina cinquenta anos após o golpe: usos do passado, cultura política e polarização”.
Assim, a partir de hoje, Tema Livre oferece aos que leem no idioma de Camões a possibilidade de desfrutarem desta intervenção intelectual pública de uma historiadora em questões que são pertinentes ao tempo presente e que, provavelmente, no futuro, serão temas de pesquisa no âmbito da História.
Niterói, 30 de junho de 2026.
Criador da Revista Tema Livre.
A democracia argentina cinquenta anos após o golpe: usos do passado, cultura política e polarização.

Por Hilda Sabato.
Pesquisadora do Instituto de Historia Argentina y Americana Dr. Emilio Ravignani. Professora emérita da Universidade de Buenos Aires (UBA). Doutora Honoris Causa (Universidade Nacional de Rosario). Autora de 19 livros acadêmicos, tendo sido “Repúblicas do Novo Mundo: O Experimento Político Latino-americano do Século XIX” e “Povo e Política – a Construção de uma República” publicados no Brasil, respectivamente, pela Edusp e pela EdiPUCRS.
Tradução: Fábio Ferreira.
Tempo de leitura estimado: 12 minutos.
Após a recuperação da democracia, duas matrizes opostas continuam vigentes como modelos em disputa daquilo que queremos ser como país.
Passaram-se cinquenta anos do golpe de Estado que inaugurou a ditadura mais feroz da história da Argentina. Esse aniversário mostrou quão presente está essa experiência na memória dos argentinos, embora também tenha permitido ver os seus limites, pois, para amplos setores da sociedade, ela ocupa um lugar menor entre as suas preocupações. As tribulações do presente não são alheias àquele passado traumático, mas, transcorrido meio século, exigem uma reflexão sobre o que ocorreu nos anos posteriores.
O golpe e suas consequências
O golpe militar de 1976 foi um dos mais anunciados dentre os tantos que a Argentina viveu a partir de 1930. Como costuma ser dito: não caiu como um raio em céu azul. A situação daqueles anos era tudo menos serena, mas, para entender o recurso às Forças Armadas para remediar tal quadro, é necessário atentar para o lugar que elas ocupavam na vida política: um fator de poder incontornável que, em nome da nação, erigia-se acima das instituições da República. Era a missão que as forças militares atribuíram a si mesmas, com a aprovação explícita ou implícita de diversos setores civis. Assim ocorreu em 1930, 1943/46, 1955/58 e, com maior frequência, nos anos 60 e 70. Em todos esses casos, os militares no poder contaram com apoios – dependendo do momento – de organizações sociais, partidos, corporações e grupos de interesse de quase todos os matizes políticos e ideológicos. Os cidadãos comuns também contribuíram para a sua legitimidade, pois simpatizavam com aqueles que pareciam encarnar a totalidade nacional.
No início de 1976, todos antecipávamos o golpe, mas pouquíssimos de nós efetivamente o temíamos. Muitos esperavam um “governo de ordem” que controlasse uma situação considerada fora do controle. O que se seguiu foi repressão, desmantelamento de organizações sociais e políticas e a montagem de uma máquina estatal de terror. Durante vários anos, seus efeitos foram minimizados por amplos setores em nome daquela paz armada que prometia felicidade. Quando o poder militar foi sofrendo desgastes e começaram reações contra ele, seus dirigentes recorreram à “causa nacional” que mobilizava grande parte dos argentinos e que ia além de qualquer razoabilidade. Assim, jogou-se a Copa do Mundo de 1978 e, depois, houve a aposta maior e mais nefasta: a Guerra das Malvinas. Não se equivocaram. Até mesmo os perseguidos pelo regime saíram às ruas para ovacioná-lo. Entretanto, foi a derrota esmagadora de 1982 que marcou o princípio do fim para a ditadura argentina.
Esse regime montou um aparato de terrorismo de Estado de caráter inédito, impôs mudanças drásticas em matéria econômica e interveio em praticamente todas as esferas da sociedade. Contudo, vista em perspectiva histórica, a ditadura guarda muitos elementos de continuidade das décadas anteriores ao golpe. O elemento novo foi a intensidade e a escala de suas ações. Por isso, costuma-se considerá-la um divisor de águas na história argentina, uma vez que nunca antes havíamos sofrido uma ação estatal criminosa de tal magnitude. Ainda assim, sustento que a virada fundamental em relação ao passado não se dá no regime de exceção imposto em 1976, mas pelo que veio após a sua queda: um novo ciclo político no qual ficaram para trás os golpes de Estado recorrentes, a intervenção militar na vida pública e a fragilidade das instituições democráticas, questões que predominaram na vida política argentina das décadas anteriores.
Começa um novo ciclo
A virada iniciou-se no final de 1983, com as eleições presidenciais que deram a vitória ao radical Raúl Alfonsín. A experiência passada levava a crer que o peronismo venceria a disputa, mas este resultado foi um primeiro indício de que algo estava mudando na sociedade argentina.
Hoje celebramos algumas dessas mudanças que se provaram duradouras. Vivemos em uma república regida pelo Estado de direito, realizam-se eleições periodicamente, as sucessões presidenciais têm alternância entre forças políticas distintas, os três poderes do Estado funcionam, liberdades e direitos continuam vigentes e, ainda, foram se ampliando, além de contarmos com uma esfera pública vigorosa. Acima de tudo, baniu-se o perigo dos golpes militares, pois as Forças Armadas já não são um fator de poder determinante. No entanto, não vivemos tranquilos, mas de crise em crise, com uma economia que alterna entre políticas liberais e populistas que não conseguem uma saída para a estagnação e a pobreza crescente. Tampouco a vida política nos dá consolo e nos oferece um Estado ineficiente, atravessado pelo clientelismo, pela corrupção e com mecanismos de representação cidadã deteriorados.
Tudo isso é sabido. Menos se tem falado, em contrapartida, de uma questão central para a vida coletiva. Refiro-me a como esta nação que chamamos Argentina foi se redefinindo e se reconstruindo como comunidade política sobre as feridas deixadas pela década anterior, que fora de violência e terror. Os sucessivos governos civis quiseram redefinir o tecido comunitário nacional à sua maneira, sem alcançar resultados definitivos. Todos proclamaram sua adesão à república democrática, mas a conceberam e buscaram forjá-la segundo seus próprios critérios. Nesse sentido, distingo duas matrizes principais que apareceram sucessivamente nestes quarenta anos e que continuam vigentes como modelos superpostos daquilo que queremos ser como país.
Uma república democrática pluralista
Começo em 1983. Ainda como candidato, Alfonsín soube captar o sentimento predominante na sociedade durante o ocaso do regime militar. A democracia era o centro de seu discurso e de seu projeto de refundar a república, iniciativa que mobilizou a esperança coletiva. Após décadas de indiferença, hostilidade ou desprezo em relação aos marcos institucionais republicanos, os argentinos encontraram ali uma palavra de ordem programática unificadora. A fórmula implicava uma crítica ao regime militar, ao mesmo tempo em que diferenciava-se de tradições anteriores que sustentavam a identidade nacional sobre a uniformidade cultural ou ideológica como base da vida coletiva. Neste caso, o fundamento da unidade remetia ao pacto político plasmado na Constituição, que seria a base na qual se propunha reconstruir a república nos moldes de uma democracia pluralista.
Esse projeto logo incorporou um tema até então ausente das preocupações políticas dos argentinos, a questão dos direitos humanos. Sua introdução no país teve origem na ação pioneira das organizações de direitos humanos durante a ditadura. Contudo, ainda em 1983, o tema não figurava entre as principais preocupações da sociedade. Desde o início, o novo governo encarou um processo de revisão do passado recente no qual esses direitos haviam sido violados sistematicamente. Sabemos o quanto custou levar adiante essa tarefa que, com seus alcances e limitações, culminou no julgamento das cúpulas militares e dos movimentos guerrilheiros, bem como na afirmação de uma palavra de ordem que selou a vontade de mudança: “Nunca Más”.
O governo de Alfonsín não contou com o apoio inicial de nenhum dos poderes fáticos da época – Forças Armadas, Igreja, grandes grupos econômicos, sindicatos –, nem de boa parte do principal partido de oposição. Para contrabalançar essas desvantagens, o presidente apelou diretamente à população e buscou aproximar-se de setores políticos como o núcleo renovador do peronismo, que se somaram à pregação democrática. Isso permitiu a Alfonsín contornar alguns dos ataques mais duros contra si, incluindo aí as pressões de militares, e colocar seu projeto em marcha. O país entrou em um período de novidades na política: a reconstrução das instituições e poderes do Estado, a reativação dos partidos políticos, o restabelecimento e a ampliação de liberdades e direitos, a reivindicação de valores de solidariedade e de justiça social e um renascimento da vida pública de modo pluralista.
Sobre essa matriz começou-se a recompor a república. Os graves problemas políticos e econômicos da segunda metade do mandato presidencial foram processados dentro desses marcos. As eleições nacionais convocadas dentro do prazo estabelecido e nos moldes legais deram a vitória ao peronismo, mas a pressão política levou a uma entrega antecipada do poder ao novo presidente, Carlos Menem. Não obstante as tensões dessa transição, a sucessão eleitoral entre partidos diferentes foi uma novidade esperançosa para a jovem democracia argentina.
O novo governo impôs mudanças radicais no econômico e no social, ao mesmo tempo em que manteve o patamar de democracia pluralista já estabelecido. Introduziu, porém, algumas modificações. Houve uma reorientação na retórica e nas ações presidenciais, que apontaram em direção a uma liderança personalista e à erosão da separação dos poderes em prol de um Executivo forte. Com um estilo oposto ao caráter mais deliberativo de Alfonsín, Menem optou por um decisionismo que angariou, inicialmente, considerável apoio.
Uma virada mais importante ocorreu no tratamento do passado recente e de suas feridas. A reconstrução do tecido comunitário nacional exigia lidar com esse passado e, nesse ponto, Menem interveio em um sentido diferente do de seu antecessor. Considerou necessário encerrar as controvérsias sobre o terrorismo de Estado e da violência dos anos 1970 e, para isso, esvaziou conquistas anteriores em matéria de justiça e defesa dos direitos humanos, culminando no indulto aos chefes militares e guerrilheiros condenados em 1985. Com uma mensagem de reconciliação nacional, propôs deixar para trás as divisões entre argentinos, por um manto de esquecimento sobre a última ditadura e violências prévias, e cicatrizar as feridas ainda abertas para “inaugurar um tempo de síntese sem nenhum tipo de exclusão”.
Por outro lado, Menem avançou decididamente no processo de debilitar o poder econômico e político das Forças Armadas, fazendo com que elas perdessem a centralidade que tiveram no passado. A reforma constitucional foi outro marco de seu governo. Embora controversa, angariou apoio da oposição radical e de outros setores, culminando em um processo de reforma institucional duradouro.
A república abalada
O final do período Menem e as eleições de 1999 chegaram em meio a uma crise econômica e social aguda, mas a nova etapa abriu-se sob um signo otimista: a alternância. Havia vencido uma chapa proposta por uma aliança entre a tradicional UCR e a recém-criada Frepaso, o que também modificava a enraizada tradição do bipartidarismo. A democracia somava mais um ponto a seu favor.
Logo em seguida vieram dois anos de intensa turbulência. Não vou me deter nas vicissitudes do fracasso dessa experiência, mas apenas registrar um momento grave para a sobrevivência da comunidade política tal como vinha se sustentando desde 1983. Diante da paralisia do governo, da endogamia dos partidos e da asfixiante situação econômica, desencadeou-se uma reação social de intensidade poucas vezes vista na história recente.
Em efeito cascata, espalhou-se pela Argentina uma explosão de protestos, tanto os espontâneos quanto os incentivados por organizações sociais e políticas. O presidente De la Rúa renunciou e, como o vice-presidente Carlos “Chacho” Álvarez já havia deixado o cargo anteriormente, o Executivo ficou vago. O sistema político como um todo mostrava sua incapacidade de cumprir seu papel representativo, alimentando a consigna popular “que se vayan todos”. A situação era extrema. Enquanto os protestos eram reprimidos pelas forças de segurança e a violência escalava, a partir da sociedade ensaiavam-se formas criativas de auto-organização social em um país quase sem Estado e com seus dirigentes alheios à realidade vivida. Paralelamente, começaram a se mobilizar os recursos institucionais disponíveis para enfrentar a emergência e o Congresso acordou uma saída: a designação de um presidente de transição, o senador Eduardo Duhalde, que chefiou o governo até as eleições.
A república pareceu estar a um triz de desintegrar-se, mas sobreviveu, ainda que com novas feridas para cicatrizar. Neste contexto, um ponto positivo: não se recorreu a soluções mágicas nem houve o retorno dos militares. A afirmação institucional iniciada em 1983, embora debilitada, continuava de pé, e o governo de emergência conseguiu controlar a situação e encaminhar a saída da crise. Mas 2001 deixou uma marca muito forte na memória dos seus contemporâneos.
Rumo a uma democracia unanimista
Assim se chegou às eleições de 2003. Consagrado presidente com apenas 22% dos votos, Néstor Kirchner dedicou-se imediatamente a incrementar seu capital político. O fez a partir de um confronto com seus antecessores, tanto no plano das políticas públicas quanto no da recomposição do tecido nacional. Frente ao projeto prévio de uma democracia pluralista, fundada no respeito universal aos direitos humanos, no repúdio à violência política e no fortalecimento da institucionalidade republicana, o novo governo optou por seguir outro caminho.
O projeto impulsionado pelo governo baseou-se em uma concepção enraizada na tradição política da Argentina, mas agora em versão renovada: a construção de uma nação homogênea no plano político-ideológico, unida por uma liderança hegemônica que encarna e, ao mesmo tempo, constitui o povo como um corpo único, que, a seu turno, é a base legítima da nação. Nesse caso, Kirchner – e mais tarde sua esposa e sucessora, Cristina Fernández – erigiu-se como esse líder popular, enquanto qualquer um que disputasse tal posição com ele ou com seu projeto era automaticamente colocado no campo inimigo da verdadeira nação. Eis o núcleo simplificado de uma formulação destinada a durar, que buscou desmontar o modelo de uma democracia pluralista e conviveu problematicamente com o arcabouço institucional republicano que, apesar disto, continuou vigente.
O sucesso popular inicial dessa virada reconhece causas diversas, entre as quais destaco três: a degradada situação da vida política e do sistema representativo, a longa tradição unanimista da Argentina e a colossal operação político-cultural do governo Kirchner para reinstalá-la no presente.
A construção de uma narrativa sobre o passado argentino foi peça-chave na definição de uma identidade coletiva em tempos de enfraquecimento das filiações partidárias, desorientação ideológica e vácuo representativo. Forjou-se, assim, o peronismo kirchnerista como constelação político-ideológica que reuniu setores de origens partidárias diversas em torno da “causa nacional e popular”, identificada com a narrativa única enunciada a partir do poder.
Nessa narrativa, os Kirchner representam o elo mais recente de uma genealogia de heróis que lideraram as lutas do povo argentino contra seus eternos inimigos, desde a Colônia até o presente, em uma história linear de bons e maus que encontra nos anos de 1970 o seu capítulo mais heroico. Em uma reversão da política de esquecimento promovida pelo governo peronista anterior, ou seja, o de Menem, Kirchner reinstalou a pauta da revisão dos crimes da ditadura, mas o fez a partir de uma narrativa memorial oficial que consagrou uma verdade única e, assim, obstruiu o debate sobre esse passado traumático. Nas palavras de Claudia Hilb, este período “foi marcado por uma apropriação crescentemente partidária da temática da memória, que teve como consequência a erosão da universalidade da reivindicação dos direitos humanos”.
Aqueles que não se sentissem interpelados pela nova narrativa eram automaticamente carimbados como inimigos do povo, reacionários ou gorilas (expressão que na política argentina significa antiperonista), categorias que implicavam a exclusão do campo popular e, por fim, da comunidade política nacional. Assim se consolidou a famosa “grieta” (a fenda/fissura), que opunha os seguidores do governo e aqueles que não se alinhavam com os mocinhos deste filme; uma fenda que separou famílias, amizades, colegas e dificultou a conversa e a discussão cidadãs.
A divisão entre aqueles que aderiam incondicionalmente ao kirchnerismo e os demais, de filiações políticas diversas, marcou a ferro e fogo o período dos governos de Néstor e Cristina. A concepção de nação que promoveram impôs-se entre amplos setores da população, que endossaram a hegemonia de um populismo autoritário. Mas, o que parecia um modelo consolidado não resistiu aos seus próprios excessos e foi perdendo o apelo que exercia para além de seus seguidores mais fiéis. O resultado foi a derrota do peronismo nas eleições de 2015. O modelo de comunidade política sobre o qual fundamentaram seu projeto não foi descartada, pois continuou e continua tendo vigência como ideal para uma parte significativa dos argentinos.
Dois modelos em cena
Vieram, então, anos complexos, nos quais os dois modelos anteriores de nação, com suas respectivas variantes, coexistiram, confrontaram-se no espaço público e se alternaram na voz das presidências de Mauricio Macri e Alberto Fernández. Enquanto isso, a política prática não conseguia satisfazer as demandas de representação de uma população crescentemente desencantada. Nesse cenário incerto, foi ganhando terreno um personagem estridente e provocador, que vinha abrindo caminho a partir da retaguarda, um outsider, Javier Milei, que se lançou na arena como combatente contra a casta política e venceu a disputa eleitoral.
As eleições foram limpas e, se formos otimistas, poderíamos afirmar que triunfou a democracia, com a alternância no poder entre partidos diferentes. Contudo, esse olhar deixa de lado processos de duração mais longa, que mostram uma afinidade profunda entre as formas de fazer política e de conceber a república da nova força que chegou ao poder e o kirchnerismo que ela substituiu. Ainda que suas posições ideológicas e programáticas sejam opostas, ambos os movimentos compartilham uma mesma concepção de organização da vida política, distante daquela que se ensaiou nos 20 anos anteriores. Resumo seus principais traços:
– O desprezo por aspectos institucionais centrais da matriz republicana, como a divisão e o equilíbrio entre os três poderes, junto a uma hipertrofia do Executivo, associado à concentração da autoridade na figura presidencial.
– A aspiração ao unanimismo que, em contraste com o pluralismo, lhes permite apresentarem-se como a única e verdadeira voz do povo.
– O uso instrumentalizado da história em função do projeto oficial. Neste caso, inverte-se a posição dos heróis e vilões da versão anterior, e agora é Milei quem ocupa o pináculo da virtude.
– A subordinação do tema fundamental da defesa dos direitos humanos à luta partidária, até chegar aos extremos atuais do oficialismo que busca apagar tudo o que se foi alcançando nesse terreno a partir de 1983.
– A chamada “batalha cultural”, que pretende impor uma narrativa única, hegemonizar o discurso público, deslegitimar as opiniões diferentes e cancelar o debate plural. A agressividade resultante escala perigosamente. Já vivemos a violência na esfera política e dissemos “Nunca Más”, mas hoje até esse imperativo caiu na nova/velha grieta – ou fissura, fenda, aportuguesando o termo.
O futuro?
Apesar dos profundos conflitos que atravessaram a nossa sociedade nas últimas quatro décadas, a república democrática segue de pé. Em meio a projetos diversos, esta Argentina plural demonstrou capacidade de reação para contrariar programas de homogeneização e de supressão das diferenças, quando pretendem impor-se de forma hegemônica e autoritária. Esperemos que, em um futuro próximo, consiga-se avançar para criar e sustentar alternativas que aprofundem a vocação republicana e democrática que dá sentido à nossa vida em comum.
Cite corretamente:
SABATO, Hilda. A democracia argentina cinquenta anos após o golpe: usos do passado, cultura política e polarização. Tradução de Fábio Ferreira. Revista Tema Livre, Niterói, 30 jun. 2026. Disponível em: https://revistatemalivre.com/a-democracia-argentina-cinquenta-anos-apos-o-golpe. Acesso em: [colocar data de acesso].
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